Nem fascista e nem nazista, bolsonaro seria de “extrema direita”

Yapmag, magazine eletrônico que inaugura nesta quinta-feira, 04 de outubro, retoma as atividades editoriais da agência You Agency Press com uma série de matérias que busca entender o fenômeno Bolsonaro de um ponto de vista histórico, ideológico e retórico. Um debate através de reportagens fruto de entrevistas exclusivas com acadêmicos europeus e brasileiros investidos na pesquisa da extrema direita geral e da história desta família política no Brasil em particular. No primeiro capítulo desta jornada de análises, Maud Chirio, historiadora especialista do militarismo brasileiro à partir  dos anos 40.

O candidato Jair Messias Bolsonaro não é um centrista. A retórica excessiva e virulenta, a proximidade com o meio militar e o apoio indefectível do lobe da Bíblia o colocam em uma posição extrema no tabuleiro político atual. Estes mesmos elementos o situariam em posição semelhante no passado onde os costumes eram menos tolerantes.

No entanto, àqueles que demonstram profunda preocupação e rejeitam violentamente o deputado carioca- uma parte pelo menos dos cerca de 45%  dos votantes nesta categoria – tem a tendência de tachá-lo de fascista, nazista e outros rótulos ligados ao autoritarismo totalitarista do entre guerras.

já os que o defendem com ardor atribuem esta percepção negativa do ídolo à um complô urdido nas redações do país. Bolsonaro, e por extensão os próprios militantes que suspeitam desta manobra putativa de propaganda, seriam injustamente acusados de tendências anti-democráticas.

A continuidade do Integralismo no “bolsonarismo”

Mas na visão da academia, ainda que o tema da extrema direita na história política do Brasil  seja menos estudado que outros movimentos e correntes, de um modo geral,  vê na candidatura do capitão uma série de características que o inscrevem sim dentro de uma tradição ideológica cujos pendores democráticos são menos intensos que os de outros partidos.

Um destes pesquisadores vive e trabalha na França. Maud Chirio é uma doutora em história e tem conduzido estudos sobre a extrema direita brasileira do pós Segunda Guerra. Para ela, “a novidade não é a existência de uma extrema direita no Brasil mas o fato de ganhar uma ampla audiência eleitoral, como é o caso com a chapa Bolsonaro/Mourão.”

“a novidade não é a existência de uma extrema direita no Brasil mas o fato de ganhar uma ampla audiência eleitoral, como é o caso com a chapa Bolsonaro/Mourão.”

Em primeiro lugar, explica a historiadora, “nestes movimentos de massa [extremamente] à direita, há concentração em torno de um chefe, um chefe que é uma figura forte, viril, masculina e militarizada.” Ele encarnaria um recurso messiânico ao autoritarismo e este seria um primeiro sinal de um tipo especial de conservadorismo que já existira no passado republicano brasileiro.

Além do chefe carismático, Maud Chirio ensina que um movimento ultraconservador, como no caso presente com Bolsonaro, “tem uma proposição autoritária, que duvida da eficácia da democracia liberal.”   Ainda que a chapa conduzida pelo apologista da tortura no Brasil se utilize das eleições para alcançar o poder.

Estes reflexos ideológicos, compara a historiadora, se inspiram em muito do movimento Integralista fundado e dirigido por Plínio salgado no entre guerras e que, seguidamente, é mencionado como sendo o “fascismo à brasileira”.

Ainda que respeitando o jogo democrático, “tanto quanto [este] lhe é favorável”, os constantes ataques a lisura do pleito e a segurança do voto eletrônico demonstram, como explica Chirio, que o fundo ideológico do candidato é autoritário e militarista. A própria idéia, exprimida à título pessoal pelo companheiro de chapa de Jair Bolsonaro, o general da reserva Hamilton Mourão, sobre a elaborar  uma nova constituição por notáveis e sem a participação de representantes do povo. “É um pensamento autoritário” em si “que tem uma grande tradição no Brasil”,   reforça a estudiosa.

O integralismo e o pós-integralismo, de acordo com Chirio, também legou a ideologia praticada pela chapa líder das pesquisas de opinião, outros “elementos de um imaginário bastante tradicional da sociedade, como o culto da hierarquia, da ordem, [mesmo] ao ponto de não respeitar os direitos individuais”. Uma forma de combate à desordem da criminalidade, por exemplo, que se exprime perfeitamente no conhecido bordão “bandido bom é bandido morto”, lembra a historiadora.

Em parte, esta forma extrema de apreço pela ordem e a disciplina é o que levaria os ideólogos em torno de movimentos como o encarnado por Bolsonaro à denunciar a defesa dos direitos humanos como inimiga do bem estar social. No entanto, salienta a francesa, “A defesa dos direitos humanos é o fundamento da democracia e do estado de direito”.

No entanto, salienta a francesa, “A defesa dos direitos humanos é o fundamento da democracia e do estado de direito”.

O que podemos ver então na consistente crítica do candidato Jair Bolsonaro, sobre à ação de militantes em favor do respeito aos direitos fundamentais de todos os cidadãos?

A professora relembra que, um outro Mourão, o General Olímpio Mourão Filho, na linha de frente do golpe militar de 1964, fora um verdadeiro integralista e autor do falso manifesto comunista conhecido como “Plano Cohen” e que serviu de justificativa para o golpe do Estado Novo liderado por Getúlio Vargas. Mais uma evidência histórica  da grande proximidade entre o militarismo presente na chapa de Bolsonaro e o movimento de Plínio Salgado. Para Maud,  ” há pouca diferença entre o discurso de Bolsonaro e os diferentes pensamentos autoritários ao longo do século [passado] em geral, e o integralismo, em particular.”, completa.

Corrupção como arma contra o adversário

Chirio pontua, que por outro lado, os meios de direita  desde a proclamação da república buscam instrumentalizar a corrupção endêmica do país e utilizá-la como a pedra angular da crítica à democracia como forma de governo. “Acusando movimentos, sejam modernizadores, sejam progressistas, de [deter] o monopólio da corrupção”, defende a  intelectual francesa.

Face à realidade do fenômeno, e o fato de que todas a correntes políticas estiveram envolvidas com desvios de verbas públicas,  ela sustenta que o tema da corrupção seria “um instrumento de acusação do adversário”. Em especial, no caso do ultraconservadorismo, seria uma forma de dizer que “a classe política é incapaz de servir à outros interesses que os próprios e que o povo seria incapaz de escolher a classe política que conviria [ao país]”, ensina.

O “Bolsonarismo”, o que é?

Em vista desta descrição da matriz ideológica do “Bolsonarismo”, como classificar, à luz da história, este movimento?

O integralismo da Ação Integralista Brasileira (AIB), é visto majoritariamente pela historiografia como o “fascismo à brasileira”. Definição dada por Maud e por outros estudiosos. No entanto, lembra a pesquisadora, que é importante ser preciso na hora de rotular o conteúdo político de um líder ou movimento. Mesmo que Bolsonaro evolua em um ambiente que se inspire no fascismo, Chirio pensa que, dada a própria controvérsia entre acadêmicos quanto ao uso do termo para definir grupos políticos, seria adequado se referir a “extrema direita”. Um termo que lhe convém, resume Maud.

“Na França, por exemplo, a extrema direita é bem identificada pelas pessoas e a utilização desta categoria bastante simples permitiu [aos eleitores] de continuar a identificar esta força política e…   não aderir [ à ela, no caso, por dois terços do eleitorado em 2017]”, acredita.

Amanhã, vamos ver com maior profundidade o Integralismo que estrutura  muitas das temáticas ideológicas do “Bolsonarismo”.  Mas também falaremos sobre as características que o afastam da história da extrema direita brasileira e o aproximam da nova extrema direita mundial.

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