Notre-Dame em chamas – Emmanuel Macron deseja que a catedral reabra em 5 anos

* Emmanuel Macron evoca um horizonte de 5 anos para o final dos trabalhos de restauração da catedral Notre-Dame de Paris

* “Eu quero dizer que eu divido a dor mas também a esperança de todos vocês”, diz o presidente da república Francesa em um discurso de seis minutos em rede nacional de radio e televisão

* A intervenção televisiva prevista para ontem, com o objetivo de anunciar as medidas saídas do Grande Debate foi prorrogada “para um momento mais adequado” prometeu Macron.

* Apesar da devastação, primeiro balanço do incêndio que atingiu a catedral de Notre-Dame de Paris são otimistas, dizem autoridades***

 

O incêndio que ontem (15 de abril) consumiu as telhas e a flecha ou pináculo ornamental da catedral de Notre-Dame de Paris junto com as vigas de madeira seculares que as sustentavam, apesar da grande consternação nacional e internacional que causou, não deve condenar a estrutura principal do monumento católico de 856 anos de existência. É o que informa o ministério do Interior e o Corpo de Bombeiros de Paris, hoje (16 de abril) pela manhã.

A preservação da estrutura principal do sítio, no entanto, esteve ameaçada durante a longa noite de batalha travada contra as labaredas. “Foi uma questão de 15 minutos à meia hora”, contou aliviado o número 2 do ministério do Interior, Laurent Nuñez, em coletiva concedida na esplanada em fronte as duas torres da fachada que, como o essencial dos muros da igreja, foram salvas. O adjunto do Interior ainda aproveito para homenagear a “coragem” e o “heroismo” dos soldados do fogo de Paris.

As chamas foram completamente extintas por volta das 9 horas horário local e o combate durou mais de 12 horas. Na mesma entrevista coletiva em frente a catedral pela manhã, o anúncio do primeiro balanço dos estragos trouxe mais boas noticias. De acordo com o ministro da Cultura, Franck Riester, após um período de 48 horas iniciado ainda hoje, em que a defesa civil e os bombeiros de paris procederão à uma operação de reforço estrutural do prédio, 90% das obras de arte e relíquias que a velha catedral encerrava poderão ser evacuadas, restauradas e acomodada sob a guarda do museu do Louvre de Paris.

Telhado da Catedral Notre-Dame de Paris nos primeiros minutos do incêndio que devastou o monumento – Foto: Elaine West-Lethielleux – ©YAP

No entanto, segundo o ministro, apesar do fato de não terem sido atingidas pelo fogo, a exposição à água lançada contra as paredes da igreja para controlar o avanço das chamas pode ter causado uma degradação mais extensa que inicialmente estimada. Riester lembrou que “é preciso prudência ainda que guardando o otimismo”.

Também de acordo com o ministro encarregado do patrimônio nacional, os vitrais em rosáceas, verdadeiras joias da catedral e um dos únicos na França a terem resistido ao teste da história intactos, foram “milagrosamente” preservados quase integralmente. Contudo, o grande órgão, célebre instrumento no mundo da musica sacra e erudita, apesar de ter sido salvo dos perigos da combustão, diferente das primeiras informações veiculadas nas horas inicias do dia, parece “ter sido bastante atingido”, explicou o ministro.

O teto em abóboda, típico do estilo gótico em que foi construída a catedral do século XII, apresenta três perfurações de dimensões consideráveis, sendo que a mais importante de todas se localisa sob o ponto onde a flecha aterrissou após o colapso desta causado pelo fogo. Ainda assim, 90% do teto resistiu ao afundamento das vigas de madeira do sótão, ou “floresta” – esta armação em madeira de carvalho que data dos séculos XII, XIII e XIV. Mais uma razão de alento para os parisienses e fiéis católicos enlutados pelo inimaginável sinistro de ontem à noite.

Apesar de diversas relíquias religiosas (Como a coroa de espinhos e a capa do rei cruzado São Luís), históricas e artísticas terem sido preservadas, as perdas são colossais e, até o momento incalculáveis. Diversos especialistas da restauração de monumentos similares a catedral incendiada, políticos e ex-ministros falam de anos e até mesmo de décadas para fazer renascer a velha casa de culto que é não só o centro histórico mas geográfico do país – a esplanada da catedral é o quilômetro zero de todas as estradas nacionais na França.

A batalha de estimativas foi lançada e o chefe do Estado, hoje à noite em um discurso à nação, em rede de radio e televisão, disse que ele espera que a reconstrução e o restauro dos estragos possam ficar prontos em cinco anos. Para Emmanuel Macron, a França, “um país de construtores”, é capaz de concluir em tempo excepcional este canteiro de obras que se anuncia colossal.

Para se ter uma base de comparação, a catedral de Nantes, que foi vítima de um sinistro similar no dia 28 de janeiro de 1972, levou cerca de 20 anos para ter os trabalhos de restauro concluídos.

* Após a emoção uma primeira polêmica

Desde as primeiras horas desta terça-feira, as questões de como um tal acidente pôde acontecer, e de saber se o sinistro poderia ter sido evitado, foram colocadas sobre a mesa em diversos programas matinais de radio e tevê do país.

O editor-chefe da revista “La Tribune de L’Art”, Didier Rikner, por exemplo, declarou em entrevista à emissora de radio Franceinfo que “se poderia ter evitado” o infortúnio da véspera. O primeiro foco do incêndio começou no entorno do pináculo ornamental que passava por uma reforma neste momento. Razão pela qual o Ministério Público de Paris, desde ontem à noite, conduz um inquérito para conhecer as causas exatas e privilegia a hipótese acidental

Rikner também acredita em acidente e pensa que a negligência estaria por trás da tragédia. “Se solda, se trabalha [no entorno da flecha] e é no momento em que os operários partem que o incêndio se inicia”, cravou o jornalista. Segundo ele, teria faltado vigilância.

Alias, 16 estatuas (representando os 12 apóstolos e os 4 profetas) que rodeavam a flecha hoje consumida pelo fogo foram retiradas do respectivos pedestais para restauração em um atelier da Dordonha no sul da França.

Já o historiador da arquitetura e professor da Sorbonne Alexandre Gady, também aos jornalistas de Franceinfo, preferiu lamentar um acidente “que poderia ter sido evitado, simplesmente, com um pouco mais de cuidado com o protocolo de segurança [contra incêndios]”. Já Jean-Michel Leniaud, presidente do Conselho Científico do Instituto do Nacional do Patrimônio, denunciou “a falta real de preservação e de atenção no cotidiano” como sendo “a maior causa desta catástrofe”. As declarações de Leniaud foram recolhidas pelo jornal La Croix.

* Armadilha da Pressa

Estas primeiras críticas motivadas pela incompreensão de especialistas da história e do patrimônio não passaram despercebidas.

Na alocução desta noite, Emmanuel Macron, diz entender o desejo de buscar respostas rápidas para as causas desta perda. Mas ele lembra que “após o momento da provação, virá o tempo da reflexão e, em seguida, o da ação”. Na visão do chefe do Estado Francês, não se deve “cair na armadilha da pressa”. Para Macron, administrar um país não é somente “administrar coisas” sem levar em conta “a história, o tempo, as mulheres e os homens” que compõe à nação, completou o primeiro mandatário.

*Dia de luto em frente ao vazio deixado no céu de Paris

A esquina da Ilha de Saint-Louis, que fica em frente aos fundo da catedral martirizada pelas chamas na noite desta segunda-feira, foi ocupada por visitantes de bairros, cidade e países próximos e longínquos. Curiosos, fiéis, ateus parisienses, interioranos e mesmo estrangeiros buscaram se aproximar da “velha Dama” em uma cena de recolhimento e luto. Uma mistura mundana e mística que dava a dimensão da desolação horizontal causada pela perda da “floresta” sob o telhado e de todas as riquezas desaparecidas e que, desde já, se sabe, não poderão ser recuperadas.

Em meio a jornalistas, turistas, parisienses anônimos e célebres, Nathanael. Este decorador de profissão, por volta dos 60 anos de idade, veio até a reportagem de YAPMAG. Ele queria exprimir o sentimento de indignação que era o seu. Para ele “houve negligência”. Este habitante do bairro se comisera da tragédia. O fogo que consumia o telhado da catedral mais célebre da França o fez temer pela perda total desde monumento de mais de 8 séculos de vida.

Com lágrimas que desciam dos olhos e corriam pela face, o sexagen