700 mil contra o projeto de reforma das aposentadorias em mais um dia de protestos em toda a França

De acordo com diversas fontes, a 3ª Jornada Interprofissional de Luta contra o projeto de reforma do regime de aposentadorias na França reuniu cerca de 700 mil pessoas nas ruas de todo o país (360 mil em Paris, segundo sindicatos e outros 360 mil no resto do país de acordo com a AFP). Se Édouard Philippe tem assegurado à imprensa que mantém uma “determinação total” de levar a missão à termo, os grevistas, de diversos setores, ouvidos pela reportagem de YAPMAG, se dizem convencidos da capacidade do movimento de “derrotar” a reforma prometida por Emmanuel Macron durante a campanha presidencial de 2017.

Não haverá trégua natalina. No início da noite, após mais um dia de greve geral com forte adesão, a Direção Intersindical, na origem do movimento iniciado no dia 5 de dezembro, e encabeçada pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT -esq.) e pela Força Operária (FO -esq.), segunda e terceira maiores centrais do país em número de filiados, respectivamente, anunciaram ações pontuais na próxima quinta-feira (19 de dezembro) e até o final do ano, e isso até “a retirada” do projeto. Na falta de resposta do governo “nas próximas horas”,  no mesmo anúncio, a Intersindical explica que “decidirá [sobre as modalidades de ações] necessárias para a continuidade além do mês de dezembro”.

De acordo com a direção da estatal ferroviária SNCF, que sofre com a greve de duas semanas (cerca de 3 quartos dos maquinistas aderem ao movimento), o tráfico deve continuar “extremamente perturbado” nos próximos dias. As partidas do final de semana que antecede as comemorações de natal não estão asseguradas. Aqueles passageiros que não tiverem suas partidas confirmadas até amanhã terão que procurar outro meio de transporte para se juntar à amigos e familiares.

Apesar da projeção pessimista a SNCF anunciou que pelo menos 50% dos trens bala (TGV) circularão no final de semana. Um alento para milhões de passageiros que tem percursos longos tipicamente servidos pela frota de TGVs.

O tráfico de trens regionais, intermunicipais e do metrô parisiense deve continuar difícil mas com ligeira melhora. É o que informou a estatal parisiense RATP. No setor elétrico, a CGT Eletricitários reivindicou cortes de luz pontuais e limitados nesta terça-feira em diversas regiões do país. Ações que podem ter reprises nos próximos dias.

O destino da reforma mais ambiciosa do mandato de Emmanuel Macron esta na balança e a determinação de cada um dos campos opostos será posta à prova. Os próximos dias serão cruciais. O governo dirigido por Édouard Philippe aposta na reviravolta do humor da opinião pública exaurida pela dificuldades impostas pela greve nos transportes. Os sindicatos instigadores do movimento social de oposição ao novo regime universal por pontos acha que os ventos são favoráveis e que a opinião não deixará de apoiá-los. Só o tempo nos dirá quem tem razão.

Manifestante distribui estandartes no início da passeata à poucos passos da praça da República – Paris -©YAP Agência

Dia de Luta

A renúncia, ontem (16 de dezembro), do alto comissário para [a reforma da] aposentadoria Jean-Paul Delevoye parece ter dopado o moral dos manifestantes nesta 3ª Jornada Interprofissional de Luta contra a reforma do regime de aposentadorias na França. O clima era de véspera de uma vitória. A derrubada do projeto que pretende extinguir os 42 regimes especiais e criar um sistema universal por acumulação de pontos –  um objetivo anunciado pela Intersindical (CGT,FO, FSU, UNSA, etc..) que tem dirigido o movimento iniciado no dia 5 de Dezembro –  é vista agora como inevitável por diversos grevistas presentes à Praça da República de Paris que foi o ponto de partida da passeata em direção da praça da Nação nesta tarde.

Isso porquê Delevoye é o homem por de trás do relatório que inspirou o projeto apresentado na última quarta-feira pelo primeiro ministro Édouard Philippe. Uma legislação que prossegue impopular e que, com a saída do “senhor reforma” o governo sofre um gol de penalte inesperado.

O experiente responsável político não resistiu as denúncias de conflito de interesses surgidas através das páginas do diário Le Parisien. O cotidiano local, revelou, no dia 8 de dezembro, que este membro do governo, que conta com um status de ministro, omitiu a função de administrador beneficente de um instituto de formação profissional na área dos seguros privados.  O “esquecimento” do ministro causou mal estar no seio da equipe governamental. No entanto, do premiê aos deputados do partido governista La République en Marche (Lrem), todos atestavam da “boa fé” de Delevoye.

O alto comissário, como todos os outros colegas de governo, deve declarar à Alta Autoridade para a Transparência da Vida Pública (AATVP) na França todas as atividades profissionais não remuneradas suscetíveis de constituir um conflito de interesse. Pior ainda, diversos grupos jornalísticos do país, de posse da declaração original de Delevoye, indicaram uma função remunerada em um círculo de reflexão francês de centro direita entre 2018 e 2019.  Por esta prestação, o ministro recebeu 64 mil euros por ano. Ainda que declarado, este posto é inconstitucional, visto que um ministro de estado deve cessar toda atividade remunerada no setor privado ao entra no governo. Jean-Paul Delevoye foi nomeado redator do relatório para a reforma das aposentadorias em setembro de 2017.

No último sábado (14 de dezembro), o quotidiano de referência do país, Le Monde, trouxe à luz a existência  de mais de uma dezena de cargos voluntários em diversas instituições, ocupados ativamente pelo politico centrista quando da nomeação para o Alto Comissariado, em 3 de setembro, e que o “senhor reforma” do governo havia “esquecido” de apontar à AATVP.  Após mais um final de semana vivido na tormenta gerada por mais esta revelação embaraçosa, já fragilizado, e em meio a uma greve que já dura duas semanas, ameaçando assim as viagens de final de ano dos franceses, Jean-Paul Delevoye entregou o cargo ao presidente da República Emmanuel Macron – que aceito a renúncia “com remorso”, conta o site de informação Franceinfo.

Neste contexto – reforma rejeitada por seis entre dez franceses, greve dos transportes que já dura 13 dias e três jornadas de protesto que levaram milhões às ruas para dizer não ao projeto – este desfalque inopinado pode comprometer a “determinação total” de levar a legislação à cabo?

De acordo com o jornalismo do principal canal público de tevê do país, France 2 (link em Francês), esta “continua sendo a intenção”. Entretanto, explica Jeff Gutemberg para o canal 2, “Discutir sim. ceder não.” Tratativas mediadas pelo palácio Matignon entre sindicatos de trabalhadores e patronais devem acontecer amanhã (18 de Dezembro) e quinta-feira. O objetivo seria o de trazer para o lado do palácio os sindicatos ditos reformistas – em especial a Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), primeira central do país, e entidade cujo presidente Laurent Berger, de longa data, se diz favorável à um regime universal por pontos.  Mas que declarou guerra à reforma ao saber que o governo, entre outras medidas reveladas na semana passada, pretende passar de  62 à 64 anos a idade mínima para obter uma pensão integral de aposentadoria.

A retirada do que o governo, eufemisticamente, chamou de medida de reequilíbrio orçamentário, pode apaziguar a oposição da CFDT e diminuir a força do movimento social nas ruas mas também nas empresas públicas de transportes. Alias, a jornada de hoje contou com o apoio da central reformista – o que unificou à frente sindical pela primeira vez em quase dez anos.

Defendendo os interesses da sociedade

Clotilde, professora em uma escola de 2º Grau em Courbevoie, na região parisiense, diz “temer pelo desaparecimento da escola pública” na França. Ela reconhece que os interesses da profissão de educador estão em jogo. Mas ela garante que não esta lutando unicamente por direitos corporativistas.  “Se nós estamos na rua no dia de hoje é para defender os interesses da sociedade, porquê nós pensamos que [com a reforma] é a escola da República que está sendo atacada”.

Como outros colegas ouvidos nas duas outras Jornadas Nacionais Interprofissionais, a grevista da Educação Nacional (ED) explica que, tal como está, a carreira não é a mais bem aquinhoada dentre as carreiras da função pública. “Nossa profissão não é recompensada à altura do nosso nível de formação,  e faz anos que ela não é mais atraente”.

Clotilde (à dir.) de novo na avenida contra a reforma das aposentadorias na França e pelos “interesses da sociedade”, afirma – ©YAP Agência

Uma realidade conhecida e admitida pelo ministro da Educação Pública Jean-Michel Blanquer, que tem prometido, com as palmas das mãos juntas, que o salário da categoria será revalorizado à altura das perdas das futuras pensões. Isso porque, como Clotilde nos explica, a “única vantagem” que os educadores teriam seria o fato de poder calcular o valor da aposentadoria pela média dos últimos seis meses de trabalho, quando estes tem salários mais altos que no inicio da carreira. Com o fim do regime especial dos professores, o cálculo de fará sobre à média de toda a vida ativa.

O que a experiente educadora suspeita é que, através da reforma do regime de aposentadorias, se esconda um projeto diferente para a sociedade, onde a EN seria transformada em uma correia de transmissão de um ensino mais profissionalizante e menos universal. “É uma maneira de nos ‘proletarizar’ (…) nós não somos lacaios! A ideia [do projeto de Emmanuel Macron para a Educação Nacional] é que [o professor] seja intercambiável. Nós sentimos que nós não seremos mais professores mas, no melhor dos casos, repetidores ou animadores. Nós não temos vontade de apenas formar os futuros trabalhadores de uma empresa qualquer. Nós temos a vontade de  [continuar] a ensinar as crianças à pensarem como indivíduos livres e como cidadão”, conclui Clotilde.

concretamente, haverão muitos que morrerão no batente

Paul, jovem operador de produção na refinaria de petróleo da empresa Total  do Grand-Puit, próximo à Melun no departamento da Seine-et-Marne, pensa que o regime por pontos representa o fim da solidariedade inter-gerações, e, sem papas na língua, o qualifica de “abjeção”.  Sobretudo, ele fala do rigor das longas horas de trabalho, dos turno de plantão, dos finais de semana de expediente ou ainda da exposição à gazes e outros produtos tóxicos. A rudeza e a dificuldade do metiê, para ele, é incompatível com uma aposentadoria integral à 64 anos. “Já à 62, nós temos colegas que partiram e que não puderam aproveitar da aposentadoria por muito tempo. concretamente, haverão muitos que morrerão no batente”, aposta Paul.

Para o trabalhador da gigante francesa dos hidrocarbonos, o aumento da idade mínima, o desprezo dos critérios de insalubridade ou ainda o maior período de carência para a concessão de pensões aos viúvos e viúvas dos trabalhadores petroquímicos das refinarias  são medidas que transformam a reforma em um projeto inaceitável. “Para nós, é a abolição do projeto e nada mais! Nós estamos motivados e vamos até o final das nossas possibilidade [de mobilização]”, promete o grevista.

A França metropolitana conta com oito refinarias de petróleo. Sete estão com a produção em marcha lenta e com a distribuição interrompida. Os estoques de combustíveis na França tem capacidade que se contam em meses. Por enquanto, a gasolina ou o diesel no posto ou o querosene para a calefação estão garantidos.

Cortejo de grevistas começa a ocupar o bulevar du Temple em direção da praça da Nação – Paris – ©YAP Agência

Otimismo e o medo de um futuro “Nojento”

Cecile, maquinista TER na região do Vexin, é grevista desde o dia 5 de dezembro. Para ela, assim como Paul ou Clotilde, só a retirada do projeto da pauta governamental a interessa. Desde o ano passado, quando foi aprovada a reforma da SNCF, em vista da abertura dos trilhos e gares francesas à concorrência privada européia, o destino do regime especial de aposentadorias dos ferroviários foi selado. Isso porquê, os novos funcionários não terão mais o direito à assinar contratos estatutários.

A greve persistente da categoria poderia parecer corporativista e sem objeto à esta altura. Contudo, Cecile garante que a greve em marcha “é um combate por todos os trabalhadores”, posto que, continua a jovem maquinista, “não há razão para que aceitemos que [o governo] nos roube nosso dinheiro cotizado, ainda mais que nós sabemos que, por trás, o dinheiro ira irrigar os cofres dos acionistas e dos ricos. Esta fora de questão [que nós] aceitemos esta reforma”, decreta a ferroviária.

Cecile, que tem apenas dois anos de profissão, e logo, será bem mais impactada pela reforma que seus colegas com maior antiguidade, sequer pensa em baixar os braços. para ela “há boas razões para pensar que poderemos retirá-la”, afirma otimista. “Cada vez mais pessoas manifestam, cada vez mais pessoas rejeitam a reforma”, pensa saber. “No momento”, explica, ” eu não penso no futuro [do projeto do governo]. Mas é certo que se esta reforma passar, o futuro que eles nos propõe é nojento”, fulmina.

 

DF de Paris

 

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