Forte mobilização em Paris contra a reforma do regime de aposentadoria na França 36 dias após o início do movimento

A quarta jornada nacional de luta contra a reforma dos regimes de aposentadoria na França, que aconteceu hoje à tarde (09 de janeiro/hora local) foi marcada por uma forte mobilização em Paris. Na capital, de acordo com a contagem da Central Geral do Trabalhadores (CGT), 370 mil pessoas desfilaram em passeata iniciada às 14 horas entre a praça de la République e a estação ferroviária de Saint-Lazare no noroeste parisiense. Esta nova manifestação foi organizada pela Intersindical que lançou o movimento inter-profissional no dia 05 de Dezembro do ano passado.

Ao final da passeata de hoje, nos entornos da praça Saint-Augustin, houve o inicio de uma ação violenta reprimida sem hesitação pela Companhia Republicana de Segurança (CRS) – a choque francesa. Vitrines e mobiliário público foram vandalizados e confrontos entre black blocs e CRSs levaram à 27 interpelações e feridos de lado à lado. De acordo com as imagens da tevê publica France 2 a calma teria sido retomada nas adjacências da praça e da estação Saint-Lazare vizinha dos incidentes.

Como é a praxe, a Prefeitura de Polícia de Paris viu apenas 56 mil manifestantes na Capital e 452 mil em todo País. No dia 17 de dezembro, ponto mais alto da mobilização até aqui,  em que mesmo a primeira central  do país, a centrista Confederação Francesa Democrática dos Trabalhadores (CFDT), convocou seus confederados à participar, as mesmas autoridades policiais indicavam 76 mil pessoas em Paris e 615 mil no resto da França.

No entanto, a contagem cegetista busca transmitir a idéia de que, pelo menos na capital, a mobilização teria sido ainda maior que a precedente. No braço de ferro com o governo, a voz das ruas tem sido o principal instrumento de combate do sindicalismo francês tem mais de um mês.

Justamente, após 36 dias de mobilização e de uma greve dos transportes ferroviários de duração inédita, o apaziguamento entre centrais sindicais e governo ainda é uma miragem diante dos olhos do presidente da república Emmanuel Macron e de seus aliados parlamentares. Esta volta das férias invernais se mostra rude no plano social. O secretário geral da CFDT, Laurent Berger, à repórteres, antes do inicio da passeata parisiense, confirmou que um acordo com a maioria governista do premier Édouard Philippe “esta muito longe”. Já Philippe Martinez da central de esquerda Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) pensa que o governo “debocha” dos trabalhadores mobilizados, posto que, segundo o que o líder sindical teria entendido, “o projeto já estaria amarro”. “Eu desconfio da intensão [declarada] do governo de diálogo”, fulminou Martinez, que ainda elogiou a determinação dos trabalhadores de resistir aos plano governamentais.

Inicialmente, o governo Philippe, de acordo com o desejo e as promessas de campanha do presidente da República Francesa Emmanuel Macron, apresentou um projeto em que todos os 42 regimes estatutários especiais de aposentadoria seriam absorvidos pelo caixa único geral em um regime universal baseado na solidariedade inter-gerações mas, diferentemente do atual sistema, com um método de cálculo de pensões por pontos acumulados e não pro trimestres acumulados. O chamado “Regime Universal” que, de acordo com o presidente Macron, seria uma medida “de justiça” social.

A este principio geral de reforma, que, no começo das discussões, a CFDT se mostrava favorável, já que o defendia tem uma década, o governo do direitista Édouard Philippe acrescentou uma medida dita “orçamentária” – quer dizer, para equilibrar as contas do caixa único num médio prazo. A mais rejeitada é a chamada “idade pivô” que prolonga o tempo de trabalho para 64 se a pessoa quiser gozar de uma pensão completa. De acordo com a proposta governamental, se ela vier à vigorar,  o trabalhador que desejar partir mais cedo, há 62 anos, poderá fazê-o, mas com uma penalidade sobre a pensão que será minorada. A insistência de Philippe e do governo que dirige em manter esta medida levou Laurent Berger e a direção colegiada da CFDT à entrar em oposição à um projeto de reforma do qual a central reformista era uma das inspiradoras.

Esta determinação do premiê também, um mês depois do início do movimento luta, incomoda a ala de centro-esquerda da maioria macronista. Como noticiou o Le Monde, eleitos em antigos territórios reformista do partido Socialista (PS), estes deputados e deputadas pressionam o governo à, pelo menos, retirar a medida tão detestada do futuro projeto de lei que deve ser apresentado no dia 17 de fevereiro. Eles temem que a durabilidade da greve dos transportes aliada à pressão das ruas em jornadas de luta como a de hoje, levem a derrocada total da reforma, como em 1995. Neste sentido, a semana social – que ainda não acabou visto que sábado (11 de janeiro) haverá mais uma jornada nacional de luta concebida para atrair a participação dos trabalhadores do setor privado – seria crucial.

Manifestantes no inicio da passeata parisiense desta tarde (09 de janeiro) – ©Dursun Aydemir – ANADOLU AGENCY

Philippe, que concedeu derrogações à regra geral para categorias e reivindicações específicas como nos casos da policia, de aeroviários, de ferroviários e metroviários, entre outros, diz querer um acordo “rápido” com os parceiros sociais, mas não abre mão do dispositivo orçamentário da Idade Pivô. O que levou às expressões públicas e ceticismo e até mesmo de hostilidade dos principais líderes sindicais do país. Além do mais, mesmo entre os concernidos pelas concessões feitas pela situação, a oposição aos planos de Macron e Philippe segue viva.

Os que estiveram na rua nesta tarde se dizem determinados a prosseguir mobilizados. Isso porquê, conforme reportou France 2 na noite francesa (meio da tarde no Brasil), como disse um ferroviário em greve, eles estariam “lutando pelo futuro dos [nossos] filhos”.

Greve nos transportes

A greve dos transportes ferroviários e do metrô de Paris entra amanhã (10 de janeiro) no seu 37° dia. Um recorde absoluto que superou, inclusive, às 3 semanas de 1995, quando os trabalhadores do setor obtiveram a derrubada do projeto de reforma do regime de aposentadoria defendida, à época, pelo premiê Alain Juppé – o ex- prefeito de Bordeaux é visto como um mentor do atual ocupante do palácio Matignon. No entanto, a inflexibilidade do governo transformou a luta contra o atual projeto em uma guerra de trincheiras.

Se é verdade que não houveram, nem trégua natalina, nem trégua de Ano Novo no setor dos transportes, com férias perdidas ou bastante perturbadas pela escasses de trens circulando, do segundo dia do ano para cá, os relatos, das empresas públicas dos trilhos SNCF e do metrô parisiense RATP e também da imprensa local e regional da França, testemunham de uma melhora nítida – ainda que os trajetos disponíveis sejam incertos e aleatórios. Transtornos que afetam, em especial, os trabalhadores das regiões metropolitanas do país – alguns exasperados, de acordo com reportagens da rede de jornalismo France Info ou ainda France 2.

Hoje, ouve um aumento do índice de grevistas, tanto na SNCF como na RATP, de acordo com as direções destas empresas. Se nenhuma linha de metrô esteve completamente interrompida, por exemplo, o tráfico continuou – e deve continuar nos próximos dias – muito perturbado. O aumento de participação nos diversos movimentos de greve em andamento tem 36 dias, de acordo com o governo, foi maior neste dia 4° de greve geral inter-profissional.

Carga policial contra manifestantes anti-capitalistas

Menos presentes nos cortejos sindicais, o ativistas anti-capitalistas conhecidos como Black Blocs voltaram a agir, no inicio da noite, ao final da passeata. Apesar do pequeno contingente de militantes, a reposta dos soldados da CRS foi vigoroso, como mostram algumas imagens filmadas por cinegrafistas amadores e divulgadas pelas redes sociais.

O choque se deu nos entornos da praça Saint-Augustin, no noroeste da capital, local vizinho a estação ferroviária Saint-Lazare – ponto de dispersão da manifestação de hoje. De acordo com a Prefeitura de Policia de Paris o encontro entre Black Blocs e policiais resultou em 27 interpelações, 20 feridos entre os ativistas e 16 soldados CRS. Conforme imagens do jornal da 20h de France 2, a confrontação deixou vitrines e mobiliário público do bairro vandalizados. Por volta da 20 horas locais a calma tinha sido recobrada.

DF de Porto Alegre, com agências

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