Duas Rosas, muitas rezas na busca de alívio através da benzedura

Curar através das benzeduras. No interior de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, vivem as duas Rosas. Rosa Pertille e Rosa Carolina Tomasi. Duas mulheres de idades avançadas, diversas histórias para contar e a vontade em comum de ajudar aqueles que precisam.

Neste primeiro capítulo, vamos conhecer as duas Rosas da montanha e as histórias de fé e redenção que elas contam. Uma série exclusiva YAP realizada por Karine Menoncin:

Foto: Gane Colada

Numa casa ao lado da igreja devotada a São Valentim, Rosa Cobalchini Pertille recebeu YAP, por volta das 8h30min, em mais uma manhã gelada na zona rural bentogonçalvense. Desconfiada ao ver esta jovem que transbordava de perguntas, Rosa foi cautelosa ao abrir sua casa e me convidar para entrar. A senhora de 85 anos mostrou a cadeira em frente à mesa da cozinha e pediu que me sentasse.

Há 15 anos, depois de falecidos seu irmão e sua irmã, que eram benzedeiros, Rosa Pertille passou a aprender as rezas e as ervas ideais para serem usadas, uma vez que este era o jeito para curar as dores e desfazer os “nós” que atrapalham a vida de quem a procura. Os ensinamentos foram pouco a pouco incorporados ao que ela já conhecia. Com orgulho, Rosa conta que aprendeu com uma outra senhora, do distrito de Faria Lemos, como benzer para dor no ciático.

 Isso tudo é reza que se faz. Benzo para mal jeito, para tirar o mal-olhado, reumatismo, cobreiro e de ciática. Eu sou a única, que eu conheço, que benze para isso. Pego a vela benta e uma pedra e é com isso que eu benzo para a ciática.

Os mal-estares curados pelas mãos das benzedeiras não são somente físicos. Rosa Pertille conta que ao benzer alguém para “tirar o mal-olhado”, é comum que as pessoas se sintam mal e que tenham dor de estômago. Este seria o sinal de que a reza teria dado certo. Para saber se uma pessoa tem lombrigas, conta Rosa, é preciso benzê-la e colocar arroz dentro de uma vasilha com água. Se os grãos boiarem, significa que este alguém está doente. Já para curar anemia, Rosa descreve um trabalho inusitado:

Para anemia é assim: preciso quebrar um ovo, segurar no meio das mãos cruzadas e depois juntar isso à primeira urina da manhã da pessoa doente. Despejo tudo em um formigueiro e, se as formigas comerem, a anemia terá ido embora.

A benzedeira ressalta que faz suas rezas porque gosta de ajudar quem necessita, apesar de considerar que existe muito preconceito em relação a este ofício. Houve um tempo, conta Rosa, que as benzedeiras eram mal vistas pelos médicos e também pelos padres. Muitos viam as benzeduras e rezas como charlatanismo ou algo que ia contra os preceitos católicos.

“Às vezes, não tenho mais vontade de fazer isso, mas continuo porque não tem mais ninguém que faça. Também não sei se é um dom. Muitos me pedem para passar o que eu sei, mas não posso senão eu perco. Só posso deixar um caderno para quem for seguir fazendo isso depois, mas só depois que eu morrer.”, decreta a anciã.

A fama de que era uma boa benzedeira foi se espalhando através do boca-a-boca na comunidade. Rosa conta que nunca cobrou pelas rezas, mas também não recusa caso queiram pagar uma quantia simbólica.

Cura Senhor onde dói

Numa casa logo após o cemitério do distrito de Tuiuty, Rosa Carolina Tomasi me recebeu com um sorriso e logo foi prender os cachorros às suas coleiras. Já era perto das 11h, mas a manhã continuava gélida a ponto de o fogão à lenha permanecer aceso. Entre risos, Rosalinda, 72 anos, conta a história de seu nome:

Meu nome é Rosa Carolina, mas todo mundo me chama de Rosalinda. Meus pais queriam me registrar como Rosalinda, mas o escrivão não entendeu direito…

Católica, ela comenta que o que faz são orações. Em geral, muitas mães com crianças a procuram principalmente pela tarde, para curar anemia, “bichas”, “macaquinho”, “cobreiro”, entre outras doenças.  À noite, vêm os homens e mulheres da comunidade que trabalham durante o dia. Muitos destes chegam com “mal jeito no nervo”, gastrites e até mesmo para “limpar o sangue” e se benzer da depressão.

“Costumo atender umas dez pessoas por semana, mas também dá para fazer orações por telefone. Para funcionar o benzimento, precisa acreditar e ter fé! E eu não cobro por nada. Quem quiser retribuir, então peça para que se reze uma missa.”, descreve o método.

Para câncer de mama, rezar para Santa Agda; nos ossos, São Carlos. Para todos os tipos de câncer, São Pelegrino é o padroeiro para os portadores da doença. Assim como na história do santo — curado de um tumor que acometia sua perna direita a ponto de precisar amputá-la —, Rosalinda mantém viva na memória o diagnóstico de câncer de mama e a probabilidade de ter que removê-la.

Naquela hora, pensei “Jesus, te amo tanto que sei que estás aqui; o Senhor pode inverter isso porque Tu tens poder”. E a cirurgia foi tão bem que surpreendeu até os médicos. Depois de ter feito 12 quimioterapias e 30 radioterapias, não precisei tomar remédio.

Cantando a música “Cura Senhor, onde dói, cura Senhor, bem aqui…”, do padre Antônio Maria, ela também pega sua Bíblia para ler um trecho e conta que se considera somente uma intermediária de Deus, alguém para quem Ele deu este dom.

Quando tinha cerca de sete anos de idade, aprendeu com sua madrinha como benzer para “cobreiro” — com três Pontas de Santa Ana e um copo de água do poço. Assim como a dona Rosa Pertille, Rosalinda ressalta que a transmissão de conhecimentos é feita dentro da família, para que não acabe a tradição.

“Vou fazer 73 anos e não sinto nada! É só pensar em Jesus que se arranja tempo para ajudar os outros e é isso que me mantém assim, bem.”, acredita.

Na sala repleta de quadros de temática religiosa pendurados nas paredes, Rosalinda conta que foi sua fé que a sustentou até no pior momento de sua vida: quando a filha, Cláudia, foi assassinada. Para não abalar a mãe que recentemente havia passado pelo diagnóstico e pela cirurgia de remoção dos tumores, Cláudia não contou que sofria ameaças do então companheiro.

“Foi Deus quem me segurou quando mataram minha filha. E é isso que eu aconselho: se apegue em Deus sempre que tiver algum problema, pois para Ele nada é impossível.”, conclui.

Karine

Uma gaúcha do interior que se descobriu na capital. Jornalista, social media, apaixonada por fotografia, turismo, culinária e histórias.

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