Anti-petismo, renovação moral e medo de uma nova ditadura foram determinantes para a escolha na disputa presidencial de 2018, dizem eleitores

Na França, religião, anti-petismo e medo do ladrão motivam o voto em Bolsonaro, já o medo do retorno da ditadura estava na cabeça dos eleitores de centro esquerda que votaram na cidade luz

 

No Brasil e na Europa as filas foram longas durante todo o domingo. A eleição presidencial de 2018 interessou boa parte do eleitor, mesmo se o índice de votos brancos e nulos alcançou a casa dos oito por cento. Em Paris, nosso correspondente conversou com alguns destes brasileiros. Na França, Ciro Gomes, candidato do partido Democrático Trabalhista (PDT) venceu, seguido de perto por Fernando Haddad do partido dos Trabalhadores (PT) e por Jair Messias Bolsonaro, candidato de extrema direita do partido Social Liberal (PSL). No Rio Grande do Sul, nossa reportagem ouviu gaúchos do interior do estado onde o voto Bolsonaro dominou a eleição neste primeiro turno. Em todo o Rio Grande, o ex-capitão chegou na frente com 53 por cento dos votos válidos. A decepção com o PT e a preferência pelo programa de combate a criminalidade do candidato extremista seduziu o rio grandense de médias e pequenas cidades.

Entre os ouvidos por YAPMAG, os eleitores de centro esquerda que sufragaram as candidaturas de Ciro e Haddad, o medo da volta dos militares ao poder e do risco que representaria à democracia no Brasil foi a principal motivação.

No lado oposto, o maior temor era o de uma ditadura “bolivariana”  caso Haddad venha à vencer no segundo turno. Entre outras fontes de preocupação aparece os costumes,  visto como decadentes, a vontade de ver a religião cristã de volta ao centro da política nacional e a demanda por um combate mais eficaz da criminalidade no Brasil.

E em uma eleição caracterizada pela chamada “ultra polarização”, no que dizem aspirar, os os brasileiros convergem mais do que divergem. Uma eleitora paraense que encontramos no final da tarde nublada e fria de Paris, vestida de verde e amarelo, disse ter votado em Jair Bolsonaro por que espera que o país “mude, que tenha paz, educação e saúde”.

Edi Telles da Silva, Paris, 07/10/2018

 

Como Edi Telles da Silva, que se agasalhou nas cores pátrias também. No entanto, diferente da compatriota nortista,  esta gaúcha que trabalha no comércio, votou em Ciro. Contudo, ela também acha que os brasileiros devem se sentir concernidos peça a violência nas cidades e pela qualidade de medicina pública. “Se tivéssemos, no Brasil, 70 por cento da segurança e da saúde que temos aqui, o país seria outro”.

Contudo, diferente de uma pluralidade de brasileiros, ela votou no pedetista porque também teme que Bolsonaro não deixe o poder ao final do mandato, se este vier à ganhar. Além do mais, ela tem certeza do que não gosta no vencedor do primeiro turno. “Não gosto de Racismo, não sou racista e vejo ele [Jair Bolsonaro] muito irresponsável e agressivo pelas respostas que ele dá”, crava Telles da Silva.

Mesmo se ela admita que um pulso forte, como na época da ditadura militar, poderia ser uma boa coisa “por um tempo”, com o candidato do PSL, como no caso de regimes autocráticos,  ela teme que o cidadão não possa apitar o final desta partida de forma pacífica e constitucional.

Um medo oposto habita a patriota do Pará. “Estamos esperando que ele [Jair Bolsonaro] traga ordem. quando eu era criança eu cantava o hino nacional para entrar na escola, e hoje em dia não tem mais respeito”, diz a eleitora bolsonarista. E ela completa, “Então, o que estamos esperando do nosso país, que vire uma Venezuela”

Além do perigo de “venezuelarização”, a compatriota expatriada pensa que o projeto do PT colocaria o Brasil nos trilhos do comunismo. Quando pressionada sobre os sinais de um comunismo galopante da nação sul-americana a eleitora do PSL indicou como sendo os de um regime onde o cidadão “não tem direito há nada. Saúde, segurança e educação. Nada”, declarou com veemência. Uma falta absoluta de direitos que seria, segundo ela, o legado do petismo e a prova do totalitarismo de esquerda.

Flávia Leone, Paris, 07/10/201870

Já Flávia Leone, doutoranda em Paris, foi votar decorada de forma a evitar toda ambiguidade quanto ao fundo do seu pensamento político. Para ela Lula é um prisioneiro político. Ela arborava no peito um adesivo “Lula Livre” e acredita que o Brasil já conheceu um golpe recentemente com a destituição parlamentar de Dilma Rousseff em 2015. Ela votou em Fernando Haddad por acreditar que esta candidatura é a única capaz de corrigir as injustiças do impeachment e da dupla condenação de Luis Inácio Lula da Silva pela Justiça Federal e pelo cárcere paranaense do ex-chefe do Estado.  

Ela não tem certeza, se no caso de vitória, Jair Bolsonaro iniciaria um golpe com o apoio militar. Mas a possibilidade assusta, acredita a jovem estudante. Se o deputado de extrema direita confirmar no segundo turno, como ela vê as chances de retorno ao Brasil? “fica mais longe. [o país] Já está difícil agora”, conclui Leone.

Maira Mamed, de Fortaleza e professora universitária, é outra eleitora que viveu o impeachment como uma ilegalidade. Ela vê a eleição de 2018, como uma chance “de devolver o voto que perdemos há dois anos”, avalia. Para ela, o congresso “nos tirou Dilma [Rousseff] que foi eleita”, afirma.

Mamed, que votou em Haddad, apesar dos casos de corrupção, em parte revelados pela célebre operação Lava Jato da Justiça federal, e que assolam o país e constrangem os líderes petistas, defende a volta do PT ao poder.  Isso porquê ela vê desequilíbrio na atuação da Lava Jato, em primeiro lugar. A cearense acha que os casos contra o partido dos Trabalhadores vão à frente enquanto os processos contra outros partidos procrastinam nas prateleiras da Justiça.

Tirante a injustiça que ela percebe na apuração da malversação do erário, Maíra Mamed julga a ação petista à frente do governo federal positivamente. “Agente avançou, em dez anos de governo PT, muito mais que em 80 anos de governo da direita.”, diz sem hesitação. Ademais, aponta, “que [após] cada [período de] governo progressista no Brasil, há um golpe militar ou político”. Como prova, ela cita a agitação contra Juscelino kubitschek em 1955, quando o Marechal Henrique Teixeira Lott teve que garantir a posse do presidente Bossa Nova, como era conhecido JK, o golpe militar de 1964 que destituiu João Goulart ou ainda o afastamento parlamentar de Dilma Rousseff.

Enfim, para a eleitora natural de Fortaleza, apesar dos limites do partido e da necessidade de reforma do sistema político, ela acha “que os ganhos sociais que aconteceram durante os governos do PT merecem ser mantidos”.

“Agente avançou, em dez anos de governo PT, muito mais que em 80 anos de governo da direita.”

Itni Resendes Marques, carioca, mora há dez anos em Paris e votou no candidato do PSL. Ela conta que, nesta eleição quis “sair da esquerda”. Também diz que votou “uma vez” apenas e se arrependera. Por isso, Marques prefere “ficar com a direita, mesmo sendo extrema”.

Quanto os aos pendores autoritários de Jair Bolsonaro ela acredita que são infundados. Além de ver o seu escolhido como “um homem reto, direito”, ela ainda lembra com ternura dos tempos da ditadura. “Eu gostava daquela época porque as pessoas tinham mais respeito umas pelas outras”, acredita saber.

Ela também concorda com Bolsonaro nos quesitos costumes e espiritualidade. Muito embora o capitão de extrema direita tenha sido múltiplas vezes desmentido pelos verificadores de fatos quanto ao suposto material didático distribuído na rede pública e o ensino da teoria do gênero aos alunos menores de idade, ela insiste. Itni Marques cita o senador Magno Malta, que ela vê como “um especialista” na área da educação, como prova da existência do desejo da esquerda no poder de massificar a chamada teoria do Gênero entres as crianças em idade escolar no Brasil.

Na verdade, afora o senador, que não é educador de profissão mas sim pastor e músico, ela oferece o testemunho familiar, de que na escola os sobrinhos homens seriam estimulados “a passar batom na boca porque não tem problema”, segundo a professora. Uma preocupação com a manutenção da representação heteronormativa que, ela admite, é oriunda da fé cristã que pratica no culto neopentecostal.

Entendendo o quão delicado o papel da religião assume no processo eleitoral em um país que se declara laico, Itni não quis responder se este é o fator decisivo na sua escolha. No entanto, ela lembrou que padres católicos estiveram presentes ao descobrimento do Brasil. por esta razão, segundo ela, “não tem como separar a religião da política no Brasil”, sustenta

Itni Resendes Marques e seu fiel amigo, Paris, 07/10/2018

 

“tenho esperança de não errar dessa vez, mas já tiramos o Collor e a Dilma; e se o Bolsonaro nos decepcionar tiramos ele também”

“Eu votei no Bolsonaro, porque já errei quando votei no Collor, no Lula e na Dilma.” Laudemir Miranda, comerciante aposentado de 62 anos, fala que sempre foi do Partido Progressista (PP), inclusive é filiado. Mas nunca votou em nenhum candidato do PP, devido a falta de representatividade.  A ideia de família que o candidato propagou em sua campanha, ganhou o voto de Laudemir. “Assim como ele, eu acredito que as crianças tem que ser educada em casa. Escola não é o lugar,”afirma. O comerciante aposentado também é a favor da intervenção militar. Segundo ele, é preciso tirar os senadores, os deputados e o juiz da suprema corte. Laudemir  conclui, “tenho esperança de não errar dessa vez, mas já tiramos o Collor e a Dilma; e se o Bolsonaro nos decepcionar tiramos ele também”.

Marcelo Jacobs, 36 anos é comerciante. Votei no Bolsonaro, não sou fiel partidário, tenho medo da intervenção  militar mas acredito que isso seja um risco que vale a pena correr.”  Filiado ao Partido do Trabalhadores (PT), Marcelo escolheu votar no canditado do PSL. “Eu votava no PT porque acreditava em uma real mudança depois do governo FHC, mas os governos Lula e Dilma me decepcionaram muito.”

Além disso, o comerciante decidiu votar em Bolsonaro pelo seu apelo à segurança. “Acho que o Brasil não tem como se desenvolver socialmente e nem economicamente sem segurança e estabilidade, eu acredito que as propostas dele são as melhores nesses quesitos.” Por final ao ser questionado sobre  postura machista do candidato. Marcelo responde que não passa de espontaneidade e que o machismo é uma questão pessoal. “ Eu tenho uma filha e acredito que o machismo de Bolsonaro não tem relevância em comparação com a segurança que o país precisa.”

Assim como Marcelo Jacobs o frentista João Luís Silveira de 51 anos, votou em Bolsonaro pela sua proposta de segurança. “ A melhor proposta de campanha é dele, me chamou atenção a questão da segurança, a punição e a rigidez.” Com relação a intervenção militar João afirma que, isso não é possível nos dias atuais. “Não tenho medo, porque não vai acontecer, os tempos de hoje não aceitam mais esse tipo de governo.”

“Votei em Jair Bolsonaro, porque estou cansado da corrupção e acredito que com ele pode haver uma mudança.” Márcio Alves Marques, 31 anos, bombeiro militar. De acordo com Márcio, intervenção militar não é um problema. “ Eu mesmo sou militar e posso te dizer que é uma coisa que funciona, principalmente nas licitações e nas prestações de conta.” Ele afirma que não se pode comprar um prego sem prestar conta e se um militar vir a roubar ele é expulso. O seu voto em Bolsonaro foi pela ordem que o candidato promete instaurar no país.” Não acho que seja preciso uma intervenção, mas um controle militar é necessário para que o Brasil entre em ordem.”

DF contribuiu de Paris

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