Quem pode odeia, quem não pode teme

Parlamentares e ativistas políticos debatem estratégias para reagir à onda de violência política e homofóbica deflagrada pela límpida dianteira de Jair Messias Bolsonaro face à Fernando Haddad 

O bar Workroom, organizou uma “roda de resistência” unindo aqueles que andam nas ruas com medo de serem agredidos. Carla Zanella, cientista social e militante que defende a negritude e as mulheres mediou a conversa com as parlamentares Luciana Genro e  Fernanda Melchionna do partido do Socialismo e Liberdade (PSOL). O cientista político e conselheiro estadual de promoção dos direitos LGBTQ, Vinicius de Lara Ribas também participou da discussão.

Três décadas após o Brasil reconquistar a democracia e o direito de voto a soberania popular sofre ataques e a política vira “desculpa” para atitudes violentas. Com apenas sete dias para a votação do segundo turno, o medo e a tensão pairam no ar. O temor instaurado pelos discursos de ódio político, racial e contra os costumes da modernidade destilados pela micro empresa de propaganda que se tornou a campanha de Jair Messias Bolsonaro do partido Social Liberal (PSL) e o sectarismo da militância petista ainda crispada contra os adversários políticos e judiciários que, sucessivamente, cassaram o mandato da presidente Dilma Rousseff e condenaram o ex-chefe do Estado Luiz Inácio Lula da Silva levaram os eleitores brasileiros à um estado permanente de animosidade. Uma polarização poucas vezes vista desde os anos 80. Um corte seco entre dois lados que se dividem entre a descrença no partido dos Trabalhadores (PT) e o discurso nacionalista e religioso da extrema direita revigorada pela crise política.

YAPMAG You Agency Press (YAP) continuam um esforço de reportagem que busca compreender os fenômenos marcantes desta campanha eleitoral sem igual na história republicana do país.  Como já mencionamos, o último destes fatos notáveis veio na trilha da vitória em primeiro turno de Bolsonaro. Encorajados pela perspectiva de ver o ex-capitão alcança o poder em menos de um mês, os apoiadores iniciaram movimento espontâneo de violência política, que já matou duas pessoas até agora.

Quem pode odeia, quem não pode teme. Uma reportagem YAPMAG junto à comunidades expostas ao ódio alimentado por um discurso hostil de Bolsonaro contra minorias visíveis e exercido sem complexo pelos mais zelosos defensores do deputado carioca.

O mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, foi assassinado a facadas, em Salvador. De acordo com o boletim de ocorrência, o crime ocorreu após uma discussão política. Além dele a travesti Priscila,  foi morta a facadas em São Paulo. Segundo uma testemunha que ouviu os agressores, eles teriam dito que, “com o Bolsonaro presidente, a caça aos ‘veados’ vai ser legalizada.’’  Estes eventos comprovam que  uma parcela da população que muitas vezes é ignorada pela sociedade, já pode vislumbrar o quanto a sociedade pode mudar de ânimo mesmo antes da conquista do Alvorada pelo candidato da Extrema Direita.  

 

Nossa luta é por igualdade e equidade”

Ribas acha que as pessoas estão enganadas quando votam em Jair Bolsonaro. Para ele é difícil acreditar que todos os que votaram no candidato extremista são de fato fascistas. Ele lembra que, no período anterior à deflagração da Segunda Guerra Mundial, a eleição de Adolf Hitler, líder do partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (nazista) e que se tornaria, em 1933, o chanceler da Alemanha, foi precedida por uma propaganda eleitoral alimentada pelo medo. Uma estratégia  muito semelhante a dos dias de hoje, acredita o cientista politico. 

Ribas conta que pesquisou para melhor entender o momento político atual.  Como resultado, encontrou  resposta em um autor que gosta muito, Primo Levi. “ O Primo Levi, um judeu italiano, foi preso em Auschwitz – infame campo de concentração alemão onde milhões de judeus conheceram a morte nas câmaras de gás do regime nazista – e escreveu um livro chamado, É isto um homem.  A obra, relembra Vinicius Ribas, foi traduzida para o alemão na década de 60. O grande sucesso da obra no país que viu a ascensão de Hitler ao poder levou o autor a receber muitas cartas de alemães tentando se justificar do porquê do apoio dado ao partido Nazista.  

“Eu estava lendo ontem e vi que os argumentos dos alemães que votaram no partido nazista são muito parecidos com os argumentos que a gente vê hoje das pessoas que votam no Bolsonaro.”

Ele explica que Primo Levi reproduz essas cartas nos anos 80, onde ele analisa os argumentos dos alemães.  “Eu estava lendo ontem e vi que os argumentos dos alemães que votaram no partido nazista são muito parecidos com os argumentos que a gente vê hoje das pessoas que votam no Bolsonaro.” 

Ribas ressalta que, tanto naquele período quanto no atual, a mídia construiu uma imagem de que existiriam apenas dois pólos e que ambos seriam igualmente extremistas. Uma espécie de batalha entre o Fascismo versus o Comunismo. “A mídia fala como se nenhum dos dois respeitassem a democracia e isso não é verdade.”, defende o cientista.  Na opinião de ribas, se precisaria deixar claro que existem, por um lado, o polo democrático, representado pelo ex-prefeito de São Paulo e, por outro, o anti-democrático representado pelo ex-oficial do exército.

Para ele, “ Esse é o argumento principal que precisa ficar claro,  um é um projeto de democracia construído a partir da transição democrática, representado pelo PT e o outro lado é o autoritarismo militar da tortura e da violação de direitos.”

 Vinícius de Lara Ribas estima que o próximo período histórico será de muita luta. “Sobretudo, para aqueles que falam que a gente não quer direito a gente quer ‘privilégio’,  fiquem sabendo que a nossa luta é por igualdade e equidade.”, dá um recado.

“Caminhamos para uma noite sem fim”

Fernanda Melchionna, ressalta que é muito importante ter um espaço para debate como  o bar Workroom, que em si já é um ambiente político. O futuro como o presente, acredita, é um momento para conversar e discutir formas de se organizar políticamente. A deputada federal está convencida que  esse novo congresso é mais reacionário que o da legislatura que terminará em 2019.  ” Agora uma extrema direita coloca a cabeça para fora e consegue arregimentar um setor com um movimentos de massas,” afirma Melchionna.

A parlamentar se inscreve na mesma linha de Vinicius Ribas, que qualificou a plataforma de Bolsonaro  como sendo fascista. “Acredito que agora seja um neofacismo que tem haver com o ressurgimento das ideias protofascistas no Brasil e no mundo. Nós temos o [Donald J.]Trump nos EUA, a extrema direita na Hungria, na Alemanha.” A deputada chama igualmente atenção para o  sistema político construído após a ditadura Militar iniciada em 1964. “Não houve uma  justiça de transição, que  lamentavelmente faz com que a gente chegue em 2018 , com um cara que homenageia torturador.”  A legisladora ressalta que só o Brasil não teria estabelecido uma Justiça de transição, contrariamente à outros países da América Latina como o Uruguai ou ainda a Argentina.

Para ela, a ausência de punição aos responsáveis pelos crimes do regime Militar e um exercício insuficiente de um direito de memória pelas vítimas faz com que não se tenha uma memória coletiva. O que nos impediria de evitar que a história se repita.  “Assim como falou o [Guilherme] Boulos [candidato do Psol à Presidência da república] no debate da Globo, em 30 anos nunca se esteve tão perto de uma ditadura militar.”, opina.

Melchionna criticou o sistema político criado pela redemocratização. “Esse presidencialismo que foi montado após o período de transição, é aquele presidencialismo do toma lá, dá cá, das políticas de coalizão e das negociatas. Para vocês terem uma ideia”, continua, “o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o [senador José] Sarney, são dois dos vários exemplos que se mantiveram desde à ditadura.” Para à deputada, estaria faltando uma alternativa realmente anti-sistêmica para combater a retórica de bolsonaro neste quesito.

A  deputada argumenta que nesses dias que ainda restam para o segundo turno o desafio seria o de criar uma unidade que pudesse  atrair um máximo de votos à favor de Fernando Haddad. Mas que, independente do resultado,  a luta dos adversários de Jair Bolsonaro deve continuar acesa.

“Caminhamos para uma noite sem fim, a verdade é que essa direita que coloca a cabeça para fora é um reacionarismo por completo que todos  nós já sabemos. Mas também é verdade que não tem noite que não acabe, o dia sempre amanhece e nós vamos lutar para que ele amanheça mais cedo. “, encerrou, com lirismo, Fernanda Melchionna   

“O núcleo duro que compõe a base de apoio ao candidato é neofascista, porém as franjas que o apoiam são enganadas pelas fake news.”   

“Estamos diante de um fenômeno que têm haver com o sentimento de frustração muito grande com a política e com os políticos em geral.” pensa Luciana Genro.  Para ela seria evidente que a mídia transformou o PT no único vilão da corrupção endêmica do país. Mas para a parlamentar, o partido de Haddad não seria o único. “Sabemos  que a corrupção e o toma lá, dá cá, não foram inventados por ele. E sim, fazem parte do sistema político e do seu modo de operar.” avalia Genro.   A deputada estima que no caso o PSOL chegar ao poder um dia e não trabalhar para “subverter” o sistema político “por completo”, “o partido também cometerá os mesmos erros do PT”.  Segundo ela, ” o sistema é um devorador de consciências.”

Para a deputada estadual, estaríamos diante de uma classe média que antes apoiou  o PT e que fora a base do partido antes que este chegar ao poder. Ela explica que esse segmento de eleitores sentiu-se  traído, porque imaginava que haveria transformações mais profundas no modo de fazer política.  Enquanto a  economia ia bem o povo suportava o governo mesmo com corrupção, acredita saber Luciana Genro.  Porém em 2013, esses eleitores teriam começado a dar sinais de descontentamento com a política.  “O levante popular mostrou que o PT não conseguia mais controlar a massa insatisfeita, porque ali ninguém tinha partido”, diz ela dos protestos que sacudiram o país e cujo estopim foi à alta dos preços das passagens do transporte público em capitais como Porto Alegre.

Com a falta de confiança  dos eleitores nos partidos políticos, Genro explica, nenhum partido conseguiu capitalizar esse sentimento para tornar-se uma alternativa não extremista.  Conforme a ex-candidata à Presidência em 2014, o modo que o Estado se estrutura impediria o surgimento de uma esquerda “consequente”.  Devido à essa dificuldade, quem acabou usando esse sentimento antisistema teria sido Bolsonaro, “Por incrível que pareça”, exclama Luciana Genro. “ele não tem  nada de anti-sistema, ele é um deputado há 27 anos,  que apresentou pouquíssimos projetos e não aprovou nenhum, usou auxílio moradia  tendo casa própria e chegou a dizer para uma repórter que usava o lugar para ‘comer gente’, esse é o grande defensor da família”, justifica a deputada sua incredulidade quanto à aura de inimigo da elite em torno do líder de extrema direita.

Mas ainda que o discurso de Jair Bolsonaro e seus apoiadores mais fervorosos entre militares e religiosos pentecostais intimide minorias raciais, mulheres e a comunidade GLBTQ,  na opinião de Genro, “assim como Bolsonaro ganhou força essas minorias também ganharam espaço como resposta”.

A deputada estadual julga que  uma minoria de apoiadores do Bolsonaro é neofacista. “O núcleo duro que compõe a base de apoio ao candidato é neofacista, porém as franjas que o apoiam  são enganadas  pelas fake news.” Luciana Genro acha que não será fácil reverter o quadro atual.  Ainda que  não seja impossível.  “Os que lutaram antes de nós na ditadura, tiveram seu momento de lutar e agora é a nossa vez de lutar, independente do resultado do segundo turno a luta deve e vai seguir.”, conclui.

Do público o depoimento de quem sofre há muito tempo

“O que eu faço com o meu medo?  Eu já fui chutado na rua, já me bateram muito. Não tenho medo de morrer apanhando para neofacista, meu medo é que falte remédio?”.

Guilherme Kern Assumpção, representante da  Rede Nacional de Adolescentes e  Jovens Vivendo com HIV/AIDS (RNAJVHA), lançou à assistência: “O que eu faço com o meu medo?  Eu já fui chutado na rua, já me bateram muito. Não tenho medo de morrer apanhando para neofacista, meu medo é que falte remédio?”. Uma lembrança de que a homofobia é um comportamento antigo do Brasil conservador e que uma gestão ineficaz da economia pela futura administração, seja ela qual for, também ameaça de morte os portadores carentes do vírus da Aids caso haja escassez de coquetéis de combate ao retrovírus.

Mozer Ramos é nordestino. Ele contou que está morando em Porto Alegre temporariamente. Apesar de ainda estar se ambientando à cidade ele afirma que o medo e a tensão é muito maior no nordeste do que na capital gaúcha. “Eu venho de uma terra onde por mais que tenha tido uma votação expressiva no PT nessa eleição, isso  não significa necessariamente que seja uma terra que vote em pessoas progressistas, muito pelo contrário. O nordeste vota no PT por vários motivos, entre eles a fome.  Isso me mobiliza muito, o meu  maior medo é  fome.  Quero saber como podemos mobilizar as micropolíticas, o que podemos fazer para levar esse diálogo a diante, para reverter nosso atual quadro?”, se pergunta Ramos.

Pressionados à desvelar pistas para o futuro, a mensagem geral dos painelistas foi no sentido de amenizar o perigo que os participantes do evento albergado pelo bar da cidade baixa testemunharam.

Politicamente, sugeriram, o  momento seria de união para o fortalecimento dos ideais e lutas comuns de diversos grupos expostos.  No que diz respeito a segurança física daqueles que se tornaram alvo da homofobia, do racismo e da intolerância ambiente estimulada, muitas vezes, pelo radicalismo assumido de  Jair Bolsonaro e de seus acólitos o conselho é simples: Sempre andar em grupos.  Ao se sentir ameaçado remova o adesivo e depois coloque novamente quando estiver em um ambiente seguro.

De Porto Alegre

Até segunda que vem (30 de outubro), YAPMAG vai publicar novas matérias especiais discutindo temas ligados à campanha presidencial brasileira de 2018 que entra na reta final. Amanhã, Armelle Enders, historiadora especialista da história contemporânea brasileira, e que em maio já pressentia o potencial eleitoral de Jair Messias Bolsonaro, em nova entrevista, avalia o processo eleitoral, os estado da democracia no Brasil e o futuro político do país. Não perca! 

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