Le Daily de la présidentielle – Marine Le Pen contra um “sistema” que parece brigar pela segunda colocação

Quem tem medo de Marine Le Pen? Ninguém parece temer a filha pródiga da Extrema Direita (ED) francesa. No entanto, ninguém demonstra grande apetite pela batalha do primeiro turno. O clima geral dos candidatos ditos do “Sistema” é de que para vencer a eleição o melhor lugar e o segundo. Analise:

Há dois meses da eleição presidencial francesa Marine Le Pen já é a vencedora do primeiro turno. A resistência retórica pouco determinada à candidata de extrema direita demonstraria que o dito “sistema”, como são tachados pelo Front National (FN) todos os responsáveis políticos fora da orbita frontista, vê este desfecho como um fato inexorável.

Ontem (27 de fevereiro) dois importantes veículos da imprensa nacional francesa fizeram deste clima de semi-trégua generalizada a manchete do dia.

O Diario Le monde vaticina desde de o lead:

“Une campagne électorale se juge autant aux combats que l’on mène qu’à ceux que l’on abandonne à la fatalité. Dans un monde où Donald Trump a été élu et où les Britanniques sont en passe de sortir de l’Union européenne, le Front national (FN) aurait dû être un sujet obsédant pour les candidats à la présidentielle française. Il n’en est rien. A 55 jours du premier tour, la candidate du FN, Marine Le Pen, est pourtant en position de force puisque tous les instituts de sondage la placent en tête du premier tour.”

Mas a obsessão é outra. Todos estes resultados eleitorais inaudito não parecem suscitar grande prudência de prognósticos da parte dos concorrente ao Élysée. Todos continuam convencidos da incapacidade de Le Pen de vencer, quem quer que seja o adversário, em um segundo turno onde a candidata se encontrara isolada contra um oponente ornado de alianças e apoios de quase todos os outros eliminados.

Um elemento que validaria esta hipótese e enontraria na descrição feita, pela  matéria de capa do vespertino, da situação atual da campanha de François Fillon. O candidato do partido Les Républicans (LR), outrora visto como super favorito, hoje se encontra na terceira colocação segundo a maioria das últimas pesquisas. Abalroado pela revelação da existência pretérita dos cargos de confianças ocupados pela  esposa e filhos do deputado Fillon – hoje sob investigação da justiça por suspeita de emprego fantasma e de receptação de desvio do erário – o ex-primeiro ministro luta contra… Emmanuel Macron, atual favorito à vitória final – sobre tudo após aliança que este firmou com o prefeito centrista de Pau François Bayrou.

Como explica o cotidiano:

C’est particulièrement sensible à droite. Vendredi 24 février, lors de son meeting à Maisons-Alfort (Val-de-Marne), François Fillon a consacré huit lignes de son discours à Marine Le Pen. Ses critiques contre M. Macron ont occupé plus de deux pages et demi de son texte…

Mas essa estratégia lateral que parece colocar o combate contra a direita dura e populista de Marine Le Pen em “stand by” não se impõe à todos como uma evidência implacável. Dentro do mesmo artigo, o neo fillonista Cristian Estrosi adverte:

 Globalement, dans cette campagne, on ne parle pas assez du FN, confie M. Estrosi. On considère comme un fait acquis que Marine Le Pen sera largement en tête au premier tour et défaite au second. Je dis attention. Mme Clinton était à 56-44 face à Donald Trump et elle a été battue avec le même score. 

Um parêntese: a media das pesquisas nacionais à véspera das eleições americanas prediziam uma vitoria de Hillary Clinton de cerca de dois por cento contra Donald Trump, o que se mostrou muito próximo da realidade posto que a ex-chanceler obteve quase três milhões de votos à mais que o atual presidente, que foi vencedor do colégio eleitoral de super eleitores que é o verdadeiro pleito que conta.

Dito isto, Estrosi, que é presidente de uma região francesa (Provence-Alpes-Côte d’Azur) onde ele prevaleceu há dois anos face a jovem deputada FN Marion Maréchal Le Pen , sobrinha de Marine, em um segundo turno disputado mas que demonstrou a forte rejeição que ainda suscita a plataforma ultra-nacionalista e euro-cética do FN no seio do eleitorado em geral.

No entanto, a preocupação exprimida pelo presidente da região PACA não cai em ouvidos completamente moucos, segundo o Le Monde: 

La configuration qui consiste à surjouer l’opposition avec les autres candidats ne doit pas nous exonérer de critiques fortes contre Marine Le Pen, en soulignant tous les aspects catastrophiques de son projet », met en garde le député (LR) de Seine-Maritime, Edouard Philippe, en appliquant ainsi à la lettre la doctrine de son mentor, Alain Juppé, qui a toujours appelé à « combattre » sans relâche « la démagogie »

Contudo, um conselheiro da campanha Fillon se justificou assim nas páginas do cotidiano:

 Avant, on était favori, et maintenant on se bat pour accéder au second tour. On essaie de sauver l’essentiel en ciblant prioritairement Macron car c’est notre principal adversaire pour le second tour

Mediapart, o site por assinatura mais freqüentado da web francesa,  também se deteve à este assunto que começa a causar espécie. Além da estratégia de “evitamento” da direita, o sitio jornalístico explora a política de “lateralidade” da campanha de Jean-Luc Mélenchon.

O candidato do Parti de Gauche (PG) estaria mais preocupado em lutar contra o abstencionismo das classes populares, como Alexis Corbière, um dos principais tenentes de Mélanchon explicou à Mediapart:

Les abstentionnistes sont la vraie cible de la “France insoumise”. Et pour cause, chez les ouvriers et les employés, le cœur de l’électorat frontiste, ce sont bien eux qui sont les plus nombreux. « Notre réflexion, c’est comment on mobilise ceux qui ne vont pas voter », explique Alexis Corbière. « C’est pourquoi dans cette campagne nous avons opté pour la latéralisation. Pas le rapport droite/gauche, mais le rapport peuple/oligarchie », poursuit le porte-parole, pour qui « les milieux populaires ne se reconnaissent pas dans le clivage droite/gauche ».  

Além de correr atrás dos eleitores popular e operário exilados das urnas Jean-Luc Mélenchon acredita que uma esquerda com uma plataforma socialista clássica com contornos ecológicos e tudo enquandrado por um espirito protecionista pronunciado que beira o euro-ceticismo é o verdadeiro antídoto contra a onde populista do FN.

Neste sentido, a comparação com a eleição norte-americana vem à tona na boca de um outro correligionário importante do candidato da esquerda radical:

… Éric Coquerel, coordinateur du Parti de gauche. Lors d’une récente réunion publique à Saint-Denis, Coquerel déclarait ainsi : « Marine Le Pen face à Macron ou Fillon, je pense qu’elle peut l’emporter, comme Trump l’a emporté face à Clinton. Je ne pense pas que Trump aurait gagné à tout coup face à Bernie Sanders. » Un discours proche de celui de Benoît Hamon. Mais, « le FN a un temps d’avance sur nous », concède Coquerel, qui, « dans cette bataille frontale », ne pense cependant pas « qu’on a perdu“.

Novamente, a comparação é tentadora mas difícil de traçar uma linha reta entre uma eleição e outra. A eleição direta national no Estado Unidos  foi vencida pela candidata democrata de centro/esquerda. Hillary Clinton perdeu a disputa final, e a presidência por conseguinte, no colégio eleitoral graças à vitorias inesperadas e decisivas de Donald Trump em um punhado de estados chamados de “swing states”.

A eleição francesa, como no caso brasileiro, é direita e em dois turnos. Neste modelo eleitoral, o desfecho de um tal pleito, com dois candidatos auto-proclamados “anti-sistema” é imprevisível.

No entanto, o que esta estratégia de subir no caixote e apregoar um programa de esquerda sem concessão revela é um foco agudo em uma disputa “lateral” à luta pelo Élysée. O que esta em jogo é a liderança da esquerda em “exílio” na oposição.

 

 

 

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