O voto Mélenchon e Macron nas grandes cidades expõe as linhas de fratura da sociedade francesa pos-globalização e pós-industrial

Geoffrey Froment

Jean-Luc Mélenchon marcou à noite pós eleitoral pela aparente dificuldade de aceitar o resultado que o eliminara da disputa de segundo turno pela presidência francesa. A percebida mesquinhez do candidato da “France Insoumise” que o teria impedido de reconhecer a derrota até tarde, ou de indicar o voto Emmanuel Macron aos militantes do movimento que dirige, relegaram ao segundo plano das discussões o excelente escore eleitoral que o deputado europeu obteve.

De fato, Mélenchon, em 2012, capturou 11% do voto francês. Em contraste, nesta eleição onde os partidos tradicionais parecem, em parte, divorciados do eleitorado, o líder da esquerda não alinhada, praticamente dobrou de peso eleitoral ficando à poucos décimos dos 20% dos votos válidos e poucos pontos da classificação à fase decisiva.

O que mais, na maioria das grandes cidades do Sul e da costa Mediterrânea – Toulouse, Montpellier, Nîmes, Avignon Marselha – Jean-Luc Mélenchon chegou na frente. Uma façanha, se considerado o fato de que o Sul da França colocou Marine Le Pen em primeiro lugar nesta eleição e que, historicamente, é um terreno fértil às ideias do Front National.

Mesmo em cidades entre 50 à 150 mil habitantes, onde o tribuno preferido da esquerda perdeu para Marine Le Pen ou para François Fillon, ele não obteve menos de 18% dos votos válidos – saindo da disputa como o chefe de fato do chamado “povo de esquerda” em cidades como Perpignan nos Pireneus Atlânticos ou en Nice na Côte d’azur.

O saúde eleitoral da centro-esquerda em grande cidades, rodeadas de eleitores frontistas por todos os lados, viria a corroborar a tese da dicotomia surgida das cartas eleitorais do primeiro turno: A Franca citadina e metropolitana contra o mundo rural.

É o que procurou explicar o cientista político Pascal Perrineau de Science-Po, em entrevista recente, concedida à uma radio de grande escuta no país:

 

É o enfrentamento de dois povos, de dois territórios. É possível observar como a dinâmica eleitoral de Marine Le Pen foi particularmente forte entre as camadas populares do Norte e do Leste. A França dos operários, dos empregados, que moram em cidadezinhas, ou nesses espaços incertos entre o mundo urbano e o mundo rural. É esta dinâmica que opõe de maneira muito forte à dinâmica de Emmanuel Macron, nos centro de cidades onde há bem mais colarinhos brancos, profissionais intelectuais, camadas de classe média, estudantes… Se vê bem que são dois povos e dois territórios…”

Mas se o voto de extrema direita e o voto de centro esquerda parecem ser o corolário, seja do mundo urbano, seja do mundo rural, esta oposição entre sociologias incorpora outras linhas de fratura também correlatas aos tipo de eleitorado.

Na juventude, por exemplo, à adesão, como explica mais adiante Perrineau, dependeria do nível de estudo:

 

Há também uma fratura no seio da juventude. Há essa juventude francesa que cruzamos nas ruas, adaptada ao um mundo [vivendo nas grandes cidades] que, certamente, escolheu bem mais [o voto em] Emmanuel Macron, Jean-Luc Mélenchon ou Benoît Hamon; E há uma juventude da qual não falamos, que esta na pior, que têm dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, que se encontra à baixo da escala de diplomas e que vota, as vezes, em massa por Marine Le Pen…

Esta mesma distribuição de votos entre os bem educados de um lado e os menos bem educados de outro foi visível durante o pleito presidencial norte-americano que viu Donald Trump sair vencedor no colégio eleitoral. Esta separação entre estes eleitorados, distintos pelo nível de diplomas, se mostrou tão patente que, Donald Trump, em um de seus comícios agradecera aos “mal educados” que lhe favoreceriam com o voto, segundo as pesquisas eleitorais à época.

Um outro grande especialista da historia e da demografia do voto na França, Hervé Le Bras, diretor de pesquisas na escola de autos estudos EHESS de Paris não nega a existência da fratura territorial entre a cidade e o campo mais a explica, nas colunas do L’Obs desta semana, de outra forma:

 

Certo[que esta dicotomia existe], Mas não é a França das cidades e a França da campanha. Tampouco exatamente aquela dos vencedores da globalização e aquela dos perdedores. Seria, bem mais, entre uma França aberta e outra fechada, porquê, na segunda, os indicadores econômicos e social (pobreza, desemprego, família mononucleares…) são menos bons, e se tem o sentimento que a situação de cada um não vai melhorar. O economista Daniel Cohen trabalha, neste momento, sobre a França otimista e a França pessimista. E ele encontra, me disse, as mesmas cartas eleitorais.

O otimismo das grandes cidades, mas bem inseridas na globalização, produziriam um espirito de confiança no futuro incompatível com a visão de uma França decadente, conforme a descreve o Front National.

Por outro lado, o mundo rural e das periferias, flagelados pela desindustrialização e pelo isolamento decorrente do êxodo rural e do fechamento de repartições publicas, como agências dos correios ou postos de saúde e de polícia, levariam as populações destas áreas à uma angustia existencial que acreditaria a tese da França em estado avançado de desintegração, sitiada por imigrantes ilegais e economicamente impotente face as forças “mundialista”. O que tornaria estes territórios, por pessimistas, em terra fértil para o crescimento do voto Frontista.

Quando à escolha do futuro presidente, como estas linhas de fratura podem estruturar a ação daquele, ou daquela, que ocupará o palácio Élysée nos próximos cinco anos? Pascal Perrineau se diz preocupado com o afrontamento destas duas Franças que não se reconhecem mais.

“se esta divisão se confirma (no segundo turno) poderia ser preocupante (para o futuro eleito), porque será necessário ao futuro presidente que ele reflita à como reconciliar, estes dois povos, que de eleição em eleição, se separa um do outro, adverte o cientista político.

 

 

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