Tensão entre migrantes e polícia persiste em Calais, diz pesquisa de ONG humanitária

Antiga “Selva” de Calais/Arquivo

 

  • Há uma semana, primeiros sanitários e torneiras foram instalados na periferia de Calais em cumprimento de ordem judicial
  • Apesar da melhoria das condições sanitárias, a polícia continuaria coibindo a presença de migrantes. O medo é que haja uma re-formação da “Selva” em torno da cidade portuária. As autoridades municipais mantém firme oposição à medidas humanitárias

Apesar do desmantelamento, há oito meses, da chamada “Selva” de Calais – vasto campo de refugiados nos entornos da cidade portuária e que, no auge da crise migratória de 2015, chegou a abrigar mais de seis mil flagelados – a tensão entre migrantes, atualmente em trânsito no local, e as forças policias estacionadas na região ainda é paupável. É o que explica um estudo de opinião realizado entre os dias 16 e 17 de agosto, e publicado esta semana, pela ONG humanitária “L’Auberge des Migrants” (AdM).

De acordo com a pesquisa, conduzida junto à 162 refugiados, 76% dos entrevistados declararam que, nos sete dias anteriores à consulta, tiveram seus sacos de dormir e outros pertences confiscados pela polícia durante as rondas regulares efetuadas nos entornos da cidade. O objetivo, de acordo com a ONG que realizou o levantamento, seria o de coibir a presença de migrantes na área. O que temem os responsáveis locais e nacionais o reaparecimento de uma nova “Selva” nos moldes dos acampamentos precedentemente demolidos no final de 2016.

Por outro lado, a derrota judicial sofrida pela prefeitura de Calais em conjunto com o Ministério do Interior (Justiça) da França, no final de julho [como noticiado aqui], apesar da oposição das autoridades locais, já trouxe sanitários e torneiras públicos à periferia da cidade do extremo norte da França. A vitoria obtida nas cortes graças a persistência de associações humanitárias é vista como um passo positivo.

No entanto, mesmo com as melhorias já implementadas ou em vias de implementação, o assédio aos migrantes acampados nos terrenos baldios da cidade de Calais é um dos aspectos indicativos de uma tensão cotidiana. Como contou o vice presidente da AdM François Guennoc à reportagem da Agência Você (YAP), “a situação em loco é de grande tensão, de fato, devido à vários fatores”.

“O Primeiro fator”, continuou o dirigente humanitário, é “um aumento no número de migrantes” que teria passado de cerca de 600 à 750 pessoas segundo levantamento da ONG. O duro dia à dia dos flagelados também é visto por Guennoc como gerador de estresse. O viajantes estacionados na área “não tem onde se abrigar, não podem tomar banho, não tem como lavar roupa e a polícia tenta, de diversas maneiras, lhes desencorajar à ficar em Calais”, indicou.

O ativista prossegue, narrando um situação de constante atrito:”à noite [a polícia] chega, incomoda e acorda as pessoas, retira barracas, sacos de dormir e cobertas, dispersa gaz [lacrimogêneo], bate às vezes… Outras vezes, joga mochilas [de refugiados] diretamente na lata do lixo”. Uma tática de coerção permanente que confirmaria o quadro pintado pelo recente relatório publicado pela ONG internacional Human Rights Watch, conforme YAP noticiou à época:

Contudo, a decisão jurídica, ao invés de apaziguar as relações entra as autoridades públicas e as associações de ajuda aos migrantes, corre o risco de levar à um aumento da tensão entre os envolvidos.

Isso porquê, com o fim da “Selva”, todas as ações de assistência aos refugiados que alcançaram recentemente à Costa de Opala, como é chamado o litoral do extremo norte, de acordo com o relatório publicado na semana passada pela organização internacional Human Rights Watch (HRW), tem sido objeto de ostensiva intimidação por parte das forças de ordem presentes em número incomum – mais de mil polícias civis e militares –  para uma cidade francesa de 70 mil habitantes.

As restrições à distribuição de víveres, os constantes controles de identidade e confrontos físicos entre a polícia, migrantes e voluntários levaram HRW à descrever a situação como a de um “inferno permanente” para os refugiados em busca de atravessar o canal da Mancha e chegar ao solo inglês.

Os responsáveis pelo policiamento local contestam o relatório e asseguram que as tropas presentes em Calais agem “no mais estrito respeito da lei”.

Uma terceira razão que explicaria o atual nível de inquietude seria, como aponta Guennoc, a crescente dificuldade de driblar as medidas de segurança impostas pelas autoridades aduaneiras e realizar, de forma clandestina, a travessia do Canal da Mancha em busca da chegar à Inglaterra – objetivo de quase todos os refugiados presentes em  Calais.

Ainda haveria um quarto fator de tensão, segundo o dirigente, que é a presença constante de “atravessadores”. Como os coiotes mexicanos que, em contrapartida de um pagamento às vezes escorchante, prometem encontrar alternativas clandestinas de entrada no Estados Unidos da América à migrantes latino-americanos sem visto de visita, estes “traficantes” de carga humana oferecem um serviço similar em direção do Reino Unido.

A disputa por território entre estes diversos “agentes” em atividades nos arredores das abundantes estruturas de travessia desta cidade portuária, localizada na porção de maior proximidade entre as costas litorâneas da França e da Inglaterra, “cria conflitos, brigas e violência pelo controle da área [de tráfico]”, comentou François Guennoc.

O militante pró-imigração completou a avaliação que faz da situação atual em um relato da interação que as diversas ONGs humanitárias, à convite das autoridades administrativas e de polícia, e os responsáveis pela gestão da crise migratória no Pas de Calais. Em resumo, os agentes do Estado francês, em contato com os ativistas e refugiados, se defendem das acusações de intimidação e dão como prova a ausência de queixas contra os policias em patrulha na cidade de Calais.

Na opinião de Guennoc, a inexistência de inquéritos contra os abusos vem do fato de que estes viajantes não tem um status legal lhes garantindo à permanência, por isso, temem que uma denúncia oficial de abuso, junto aos órgãos cabíveis, resulte em prisão e expulsão do território europeu.

Temores que seriam reforçados pelo fato de que, independentemente do que alega a hierarquia policial, haveria, segundo a ONG, um grande número de detenções administrativas, principalmente, de refugiados afegãos nos últimos meses.

Por enquanto, YAP não pode conformar, de forma independente, as denuncias contidas nos estudos e relatórios publicados pelas associações humanitárias que atuam na região do Pas de Calais. Como em outras ocasiões, o ministério do interior nega qualquer abuso de autoridade ou tratamento desumano dos migrantes acampados no norte do país.

 

Ouça íntegra da entrevista (conteúdo bruto e em francês):

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