Marcha Solidária – “Onde estão as mulheres?”, se pergunta a confeiteira de Clermont

A caminhada, iniciada em Vintimille em 30 de abril, em favor dos migrantes na Europa e contra o bloqueio das fronteiras, completou mais uma etapa em direção a Calais e Londres. Hoje, no programa da Marcha Solidária, tiveram 30 km a pé entre as cidades de Creil e Clermont no departamento da Picardia.

You Agency Press (YAP) passou mais um dia junto aos participantes e organizadores deste cortejo em favor de uma “verdadeira acolhida” de migrantes no velho continente. Amanhã, no encerramento de nossa reportagem especial, YAP seguirá os passos destes peregrinos até Compiègne, a 30 km de Clermont.

Calais ainda é um destino longínquo, mas já se pode ver no horizonte. O périplo, literalmente peripatético da Marcha Solidária se aproxima de um dos lados da fronteira que tanto atraí imigrantes dos mais diversos países da África e da Ásia.

Como todos os voluntários em favor da causa da abertura ampla das fronteiras e do auxílio aos migrantes de Calais explicam, no caso da Capital do extremo norte da França, os que ali chegam e ficam, por outro lado, só tem Londres por horizonte.

No entanto, as múltiplas barreiras aduaneiras que os impedem de circular livremente entre um lado e o outro do canal da Mancha não são absolutamente invioláveis. Como comentava Chrystelle, nossa voluntária “bretonne” de ontem, “se não existisse nenhuma possibilidade passar pela fronteira e chegar à Inglaterra, eles não iriam para lá”, acredita.

Mas, como o dispositivo de proteção do acesso à fronteira é impressionante e bem financiado pelo Reino Unido, de “floresta” em “floresta”, de “selva em “selva”, repletas de refugiados em busca da sorte, de uma cumplicidade ou de uma troca de favores que os permita de eludir os inúmeros controles dos dois lados da Mancha, o Estado francês, a prefeitura e a população de Calais preferiria que os poucos que ali ainda chegam se mostrassem invisíveis.

Onde estão as mulheres?

No meio da tarde, após 25 km de marcha, o cortejo chega ao centro de Clermont. Uma cidade típica da Picardia, com ruas em paralelepípedos, casa do século 19 misturadas com imóveis medievais vizinhos a construções modernas, mas já envelhecidas. Ao fundo, uma grande igreja gótica. Ao lado do largo da prefeitura municipal, onde os viajantes humanitários foram recebidos por associações locais. Um casebre de arquitetura medieval, atrás de uma porta de marco baixo e estreita se escondem os doces e bolos de uma confeitaria como que saída de uma outra época.

Atrás do balcão, uma senhora que poderia ser confundida com uma sósia de Edith Piaf, pele alva, olhos exorbitados e aquele penteado com um topete composto de pequeninos cachos entre o loiro e o grisalho. Após nossa transação concluída, ela me pergunta sem rodeios: “Onde estão as mulheres?”, interroga. “Porque só vemos homens?”, continua a comerciante de doçuras.

O que ela queria saber era o porquê do grande número de refugiados homens – majoritários entre os imigrantes que atravessam desertos e mares rumo as fronteiras e praias europeias. “Nós, os franceses, acreditamos que eles preferem deixar mulheres e crianças para trás, onde elas são massacradas e mortas”, conclui com um ar satisfeito e orgulhoso.

Traumatismo

Quando a ONG Médicos sem Fronteiras (MSF), em parceria com o Gisti de Paris, abriu um centro de triagem, apoio e encaminhamento de jovens migrantes menores e isolados, em dezembro de 2017, YAP pode entrevistar psicólogos que atendem, há anos, sobreviventes da travessia do mediterrâneo, por exemplo.

Este profissionais explicam que um viajante, ao chegar a países como a Líbia, é presa fácil nas mãos de atravessadores, bandos de vigilantes mercenários e outros criminosos que os capturam e os encarceram, praticam sevícias físicas e sexuais ou ainda escravizam por longos períodos estes candidatos ao exílio.

O mar bravio e as embarcações improvisadas, juntos, acrescentam um perigo de morte suplementar. Milhares de jovens africanos e asiáticos já deixaram suas vidas no fundo do mediterrâneo desde o início da crise migratória em 2014 e continuam morrendo até os dias de hoje.

Os que chegam as costas europeias estariam em um tal estado de choque que o trauma que carregam é de difícil tratamento. Pode-se levar anos para que um destes jovens homens consiga confrontar o que lhe aconteceu durante os caminhos do exílio.

Argumento recorrente

Munido destes fatos que me foram transmitidos pelos profissionais do Gisti, que são uma referência na área do tratamento psicológico pós-traumático de migrantes, eu respondi que eu não conhecia a resposta exata para a questão que a simpática confeiteira me fizera. No entanto, o desejo de proteger as mulheres dos perigos do caminho poderia explicar esta desproporção entre o número de homens e de mulheres presentes nas rotas de imigração e nos países europeus de destino.

O olhar da vendedora mudou de expressão e ela se mostrou surpresa de ouvir um resumo dos percalços por que passam estes jovens homens migrantes. Ao descrever a cena a François Guénnoc,  vice-presidente do Albergue dos Migrantes (AdM) de Calais, e verdadeiro maestro da orquestra dos “Caminhadores” humanitários, ele confirmou minha intuição.

Maz Guénnoc fez uma ressalva: por trás do comentário da minha interlocutora local se esconderia um dos argumentos da direita extrema e demagógica que alcança resultados surpreendentemente positivos nos últimos anos.

“Muitos dos nossos adversários tentam desqualificar os povos migrantes utilizando o argumento da covardia”, ensina. Segundo o dirigente, por trás do comentário aparentemente inocente, estaria a acusação de indiferença e ignominia destes estrangeiros que partiriam de países em conflito e se permitem buscar asilo sem se preocupar com a sorte dos que ficam pra trás.

Uma alegação que é parente de uma outra onde os franceses, durante a Segunda Guerra Mundial, corajosos, não buscaram o exílio e resistiram ao ocupante alemão. Uma leitura “distorcida e falsa” da resistência, afirma François Guénnoc, que tem por objetivo demonstrar a covardia dos refugiados que escapam da morte  em países como a Síria, Iraque ou Etiópia através da imigração.

Participante da Marcha Solidária distribui panfleto e discute com moradores às margens do cortejo (22 de junho) ₢YAP

Ao longo da estrada, nas calçadas e acostamentos, há gente simpática e solidária da Marcha. No entanto, os preconceitos, como o exprimido pela pergunta da confeiteira de Clermont também são abundantes e de menos à menos constrangidos.

Amanhã, último resumo, direto da estrada, da reportagem especial que YAP realiza sobre a Marcha Solidária em Favor dos Migrantes que ruma à Calais e Londres.

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