Conheça os números e as mãos laboriosas que asseguram o andamento da Marcha Solidária em favor dos imigrantes

A Marcha Solidária em favor dos imigrantes – que partiu de Vintimille, na Itália, no dia 30 de maio rumo à Londres, capital do Reino Unido – completou mais uma etapa. No dia 23 de junho, como nos dois dias anteriores, You Agency Press (YAP) acompanhou os participantes que caminham pelo fim das barreiras aduaneiras que entravam a rota de imigrantes a caminho do exílio na Europa e pela livre circulação de populações.  

O dia começou com uma discussão informal que tinha por objetivo a troca de impressões entre os mais aguerridos participantes e os recém chegados. A reunião também serviu para ajustar os ponteiros e melhor preparar a continuidade dessa aventura itinerante. O papel dos voluntários responsáveis pela logística e organização da Marcha é o pilar que sustenta todo o movimento. 

A Marcha Solidária conta com os serviços de oito voluntários abnegados que passarão dois meses na estrada, outros tantos que participam ao vai e vem de mãos laboriosas e bem intencionadas. Esta orquestra executa uma sinfonia nos bastidores e é dirigida por um maestro incansável – enfim, que esconde todo sinal de exaustão.

François Guennoc, como muitos daqueles que participam da vida associativa em favor dos imigrantes que rumam à Calais (extremo norte da França) em busca de uma chance de atravessar  o canal da Mancha, é, ao mesmo tempo, pudico e cândido, discreto e onipresente.

Ele é o vice-presidente da ONG Albergue dos Migrantes (AdM) que atua junto aos estrangeiros presentes no entorno da capital do Pas-de-Calais. Desde 30 de maio, o comandante de uma tropa pacifista que caminha a passo de marcha da fronteira franco-italiana em direção do Reino Unido em 60 etapas.

Durante os três dias que a reportagem de YAP seguiu a Marcha Solidária, os voluntários, ajudantes casuais de uma ou mais semanas ou o simples manifestante, todos se disseram impressionados com a ética de trabalho daquele que a comanda. “Ele é sempre o primeiro a se levantar e o último e ir dormir”, é uma frase que se ouve frequentemente.

O comportamento do dirigente inspira os voluntários e os caminhadores e o exemplo do maestro sem batuta é a base sob a qual se assenta o respeito que todos manisfestam por esta liderança modesta.

Quando elogiado, François Guennoc minimiza: – “eu carrego um mapa e um megafone e estes são os únicos símbolos de poder que eu possuo”. Ele se diz capaz de recomeçar a cada dia graças a energia que recolhe do grupo em marcha. Mesmo que não demonstre, em aparência, grandes sinais de fatiga, ele garante que os que o conhecem percebem o cansaço que carrega.

No último dia em que passamos junto ao vice-presidente de AdM e seus pupilos e colegas, o dirigente nos garantiu que concluída a última etapa vai “estar bem abatido”.  Ele promete se isolar em algum local da Bretanha natal com a esposa e desligar o telefone por vários dias.

No entanto, ele prefere diluir os méritos que lhe são atribuídos lembrando que “outros também se levantam cedo, dormem tarde e se dão por inteiro à organização”. E de fato, além de Guennoc, oito voluntários – ex-funcionários e estagiários do AdM em Calais – asseguram a logística do protesto saltimbanco.

François Guennoc começa o dia com anúncios aos peregrinos da Marcha Solidária que comanda desde do dia 30 de maio ₢YAP

 

Um dia após o outro

De acordo com os organizadores, a Marcha Solidária custou 60 mil euros aos cofres da ONG. A cada dia, cerca de cinquenta participantes integram o cortejo e são alimentados, alojados e caso necessário, transportados pelos responsáveis do evento. Mas como se passa o dia do “caminhador”?

O dia, para quem marcha, começa às 6h, quando todos são convidados a se levantar, recolher seus pertences e se preparar para o café da manhã, sempre por volta das 7h da manhã.

Entre as 8h e 9h da manhã, uma nova etapa começa. Uma reunião de discussões pode acontecer. O objetivo é o de equalizar os procedimentos entre participantes integrados à Marcha Solidária há dias ou semanas e aqueles que são recém chegados à trupe.

Independentemente deste momento de troca simples onde todos podem fazer sugestões, pedidos ou buscar esclarecimentos –  aos quais os membros da organização procuram proceder com solicitude –a rota inicia o mais cedo possível e o périplo se estende por todo o dia em dois turnos com um piquenique no meio. São seis horas mínimas de caminhada diária.

Na hora da refeição, o verão que começa favoriza cenas idílicas de viajantes sentados na grama, sob o sol ou protegidos pela sobra do arvoredo, como em um quadro de Pierre Auguste Renoir onde populares gozam de recreio estival sob os plátanos e chorões da paisagem do norte da França.

Mas a rude travessia, cujo engajamento físico é necessário e extenuante, deixa traços visíveis a olho nu, a cada final de etapa. Dores no corpo, pés em chagas, rostos queimados do sol insidioso e rasante da manhã ou, ainda, o déficit de sono que cobra seu preço na forma de olhares perdidos em um horizonte particular.

Por volta das 18h, o pensamento coletivo se dirige à promessa de um jantar restaurador das forças deixadas no asfalto. À meia noite, só há breu e o silêncio é tudo que se ouve

Logística

Como Clémence, voluntária que deve concluir os dois meses de caminhada, oito pessoas e suas mãos abnegadas fazem funcionar, quase sem percalços, a logística que, nos bastidores, garante o bom funcionamento de cada etapa. Como conta François Guennoc, os primeiros dias foram mais difíceis, mas com o passar de cada jornada, “os movimentos se automatizaram e hoje tudo se passa de maneira ensaiada”.

Prova é que, quando perguntada, Clémence responde de maneira monocórdia e sem hesitação a rotina do voluntário. Desde que o galo canta, os voluntários que trabalharão na logística do dia abandonam o leito improvisado para começar a preparar o café da manhã. Após a partida do grupo, é a hora de levantar acampamento. Recolher barracas, sacos de dormir, cobertores e outros apetrechos que são oferecidos aos participantes a cada noite.

Quando os oito veículos envolvidos na marcha estão devidamente carregados e prontos para partir, continua a jovem humanitária, um carro vai às compras, outro segue de longe o cortejo e ambos se encontram no local do piquenique do meio do dia. Lá, mais trabalho. Preparar o bufê para receber aos famintos peregrinos, limpar e recolher todo o aparato ao final da refeição e partir, novamente, às compras para o jantar, re-acampar, inflar colchões, montar barracas…

Bufê de acolhida ao final de mais uma etapa ₢YAP

“Quem participa da logística do dia não tem muito tempo para o repouso. Uma hora de sesta e é só”, garante Clémence. Para ela, quando pode caminhar o dia inteiro, é uma chance que tem de um verdadeiro repouso. “Ao menos [apesar de caminha o dia todo] nós não nos preocupamos com nada”, conclui a jovem voluntária.

Mas, apesar das agruras de um dia de trabalho, a experiência aporta grande recompensa, assegura. “Faz um mês e meio [que a marcha começou], parece uma semana ou, às vezes, nós temos a impressão de ter partido há anos porque vivemos muitos dias em um. Todo o dia, encontramos diversas pessoas, é, ao mesmo tempo, rico e intenso”, testemunha Clémence.

A marcha continua, sem a reportagem de YAP, rumo à Londres, com chegada prevista para o dia 8 de julho. No entanto, de volta à Paris, nossa reportagem vai continuar a dividir, pelo blog, outras histórias da Marcha Solidária. Siga, curta e compartilhe nosso trabalho. 

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