Revelações e reviravoltas abalam a tese da punição sumária editada contra Alexandre Benalla

O diretor da Ordem Pública e da Circulação junto à Prefeitura de Paris (DOPC), Alain Gibelin, em um depoimento noturno à Comissão de Inquérito Parlamentar instalada pela Assembleia Nacional francesa (CPI) em reação à revelação do jornal Le Monde – que identificara em um vídeo amador, na quarta-feira passada (18 de julho), o ex-subchefe de gabinete de Emmanuel Macron como o autor de agressões flagradas contra dois manifestantes em um protesto parisiense durante as comemorações do Dia do Trabalho (1° de maio) – fragilizou a versão palaciana de que a hierarquia deste ex-responsável pela segurança pessoal do Chefe do Estado agira de forma expedita punindo o interessado com uma suspensão sumária de 15 dias sem salário. 

O caso paralisou boa parte das atividades do parlamento francês – já em ritmo mais cadenciado devido ao período de férias estivais – e concentrou a atenção da mídia nacional que, até então, sofria de tédio anual de verão.

 

Este alto servidor do Estado, em respostas a perguntas precisas da chefe da bancada de extrema direta, Marine Le Pen, deputada do Pas-de-Calais, explicou que Alexandre Benalla, participara de reuniões de organização de deslocamentos oficiais do presidente da República em pelo menos três ocasiões de 4 a 18 de maio, ou seja, durante o período em que este deveria estar afastado cumprindo a pena administrativa que lhe fora decretada.

No entanto, no início da manhã de hoje (24 de julho), Gibelin redigiu uma nota corretiva à presidência da CPI, voltando atrás. O diretor explicou que ele não teria compreendido a que período Le Pen fazia referência. De acordo com a nova versão, o chefe da DOPC pensava se exprimir sobre o período indo do dia 2 de maio até o 18 de julho, dia das revelações feitas pelo monde. Efetivamente, segundo a carta de Alain Gibelin, Benalla participara de encontros desta natureza no mês de junho e julho.

Evidentemente, essa reviravolta não convence a oposição que, no caso da direita, tenta obter um voto de confiança ao governo que, potencialmente, em caso de falha, poderia dissolver o gabinete ministerial dirigido por Edouard Philippe, e no caso da esquerda radical, a reiteração do pedido de oitiva do presidente Emmanuel Macron.

Se Alexandre Benalla não foi punido, ou punido, não cumpriu rigorosamente a pena incorrida, isso sugeriria que o presidente da República preferira proteger um funcionário estimado das consequências de atos potencialmente irregulares e mesmo ilegais.

É o que pensa Damien Abad, deputado Les Républicains (LR) de Landes. Para o parlamentar, a CPI é necessária, visto que a razão da benevolência do chefe do Estado lhe parece misteriosa. “Que serviços [Alexandre] Benalla teria prestado [a Emmanuel Macron] para que ele seja assim protegido”, interroga-se o oposicionista.

O chefe do governo francês, aliás, repetiu múltiplas vezes que considera o caso Benalla como um caso de “naufrágio pessoal e de um comportamento inaceitável” de um homem que se acreditava intocável devido à proximidade com o chefe do Estado. Para Philippe, o ex-subchefe de gabinete não contou com nenhum sistema de favor reservado aos escolhidos do presidente.

Edouard Philippe também acusou a CPI de procurar a crise e não a verdade. Uma fórmula que o chefe da esquerda radical na Assembleia francesa, Jean-Luc Mélenchon, não deixou de explorar durante a sessão de hoje. “Vossa excelência disse que a CPI buscava a crise e não a verdade, mas a crise está aqui e a verdade escapa ‘de fininho’. É por isso que pedimos a presença de Emmanuel Macron na comissão, posto que ele é o único a conhecê-la [a verdade]”, disparou o deputado de Marselha.

Já o diretor do gabinete da presidência da República, Patrick Strzoda, em audiência neste momento da CPI da Assembleia, por um lado, reconfortou a linha de defesa do palácio Élysée, afirmando que Benalla, seu inferior hierárquico, fora sim suspenso por 15 dias,”eu confirmo, o senhor Benalla não esteve presente no Élysée entre o 4 e o 22 de maio”.  Por outro lado, ele validou o que dissera Alain Gibelin na véspera, a saber, que o ex-assessor de Macron, dia antes da festa do Trabalho, teria pedido autorização para participar, como observador, das ações de manutenção da ordem junto à uma tropa de choque da polícia de Paris à convite da DOPC. Um convite feito, não pelo diretor do departamento, mas pelo chefe do estado maior, Laurent Simonin.

“O nome de Simonin, evoca para mim profissionalismo. Logo, eu deduzi que à Prefeitura [de Polícia] haveria autorizado a missão [de observação]. Logo, eu deu um sinal positivo ao pedido de [Alexandre] Benalla para que ele participasse”, precisa Strzoda.

Tanto o chefe da DOPC como o diretor de gabinete da presidência, ao indicar Laurent Simonin como autor do convite ao ex-funcionário palaciano parecem buscar uma justificativa plausível a falta de autorização oficial emanando da Prefeitura de Polícia, que como disse ontem à mesma comissão Michel Delpuech, Prefeito de Polícia de Paris, desconhecia a existência da missão pivô da crise atual.

Laurent Simonin, desde então, virou réu no processo que julga os  três policias que permitiram que Alexandre Benalla tivesse acesso a vídeos internos da Prefeitura de Polícia de Paris com imagens da agressão perpetrada pelo guarda costas contra os dois manifestantes. Um favor que poderá custar os cargos e a liberdade dos envolvidos, posto que o vídeo em questão não pode ser repassado a civis, de acordo com a lei penal francesa.

Emmanuel Macron, fora ter deixado claro que considera os atos imputados ao ex-assessor seriam “inaceitáveis”, ainda não encontrou uma boa ocasião para se exprimir sobre os desdobramentos deste caso extravagante.

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