O caso Benalla: escândalo de Estado ou novela de verão?

O caso Benalla sacudiu o parlamento francês no início do verão parisiense e a poucos dias do recesso, continua  gerar manchetas esporádicas, durante este mês de férias tórridas. No entando, se 57% dos franceses consultados por um instituto de pesquisa acreditam que os acontecimentos relacionados com a ação violenta do ex-subchefe de gabinete da presidência da República no dia do Trabalho constituem um escândalo de Estado.  A  dúvida persiste: Escândalo de Estado, ou como dizem os defensores do presidente Emmanuel Macron, uma novela de verão? Em vista da história da chamada 5ª República francesa, como qualificar este affaire veranil? 

Em 1984, juntos na prefeitura de Paris, o presidente em exercício François Mitterrand, o futuro primeiro ministro de co-habitação, Jacques Chirac, e a viúva do ex-presidente Georges Pompidou, Claude ₢pfrefeitura de Paris

O caso Benalla, que ainda gera manchetes em pleno verão francês revelou a hipertrofia do poder presidencial em um país que no papel viveria sob os auspícios de um regime parlamentarista.

No entanto, a forma como o comportamento irregular e violento de Alexandre Benalla foi tratado pela hierarquia palaciana chocou parte da classe política na França pelo carácter discricionário das decisões tomadas contra o então subchefe de gabinete e guarda-costas favorito do presidente da república Emmanuel Macron.

Não só a punição de um dos homens de confiança do chefe do Estado foi vista como branda, mas as vantagens concedidas à Benalla em razão das funções que seriam as suas junto ao Élysée. Levaram parlamentares, chefes de partidos e articulistas da imprensa local a qualificá-las de privilégios e mordomias concedidas sem o consentimento ou controle do contribuinte que ainda no caso do casal agredido na Praça da Contrescarpe; apanha na cara.

Como disse o presidente da chamada Comissão de Leis do Senado da República transformada em comissão de Inquérito Parlamentar (CPI), devido ao período de pré-recesso da câmara Alta, o parlamentar Philippe Bas afirma o caso Benalla como, “um escândalo de Estado.”

Philippe Bas: “Quando um agente do Élysée pode empunhar uma insignia azu, branca e vermelha [cores da bandeira francesa], insignias de polícia [sem ser um agente da lei], que o governo permita que [Benalla] continue agindo quando [este] foi às vias de fato, o que temos manifestadamente é uma confusão de poderes”, justificou, quando da instauração da CPI senatorial, a dura classificação dos acontecimentos em torno do ex-guarda costas do presidente Macron.

Exatamente, continua Bas, “quando um agente do Élysée pode empunhar uma insignia azu, branca e vermelha [cores da bandeira francesa], insignias de polícia [sem ser um agente da lei], que o governo permita que [Benalla] continue agindo quando [este] foi às vias de fato, o que temos, manifestadamente, é uma confusão de poderes”, justificou.  Quando da instauração da CPI senatorial, a dura classificação dos acontecimentos em torno do ex-guarda costas do presidente Macron.

Além do percebido abuso de poder e de autoridade a presença discreta de Alexandre Benalla nos entornos do palácio mas também das instituições policiais suscitou um clima de polícia paralela, secreta, talvez de espionagem política pilotada pelo presidente e sem o aval dos serviços de Estado.

Um reflexo mais recente da classe política que receia a reconstrução de uma estrutura paralela de guarda-costas, homens de mão e arapongas, pagos pelo Estado mas à serviço de um partido, como fora o caso do Serviço de Ação Cívica ou SAC, que disciplinava e dava proteção aos eventos do partido gaullista mas que também executava vendetas facciosas contra os opositores do general fundador da 5ª república bem como espionava de maneira ilegal adversários e aliados.

A  5ª República de Charles De Gaulle

General Charles De Gaulle, presidente da República francesa, reponde a questões em coletica de impressa (1965) ₢prefeitura de Paris

Estas inferências decorrentes dos fatos conhecidos e das dúvidas persistentes ao redor deste caso não inspiraram a oposição à modéstia e a temperança. Mas sim a crítica acerba e, por vezes, hiperbólica a gosto.

Escândalo de Estado! Eis o grito preso na garganta de deputados como Alexis Corbière do partido esquerdista France Insoumise (FI),  que o entoaram desde os assentos recobertos de veludo do hemiciclo da Assembleia Nacional (ANF).

Mesmo a bancada macronista admite as falhas de “comunicação” e de “ótica” do caso. Mas como declarou o primeiro ministro, Edouard Philippe, durante a sessão que derrubou os dois pedidos de censura contra o governo que dirige, “nada foi escondido” do público. E ao final insistiu na mesma ocasião o premier, de que tudo foi resultado “de uma deriva pessoal” de um homem.

É um consenso entre as oposições que o caso Benalla é grave. Mais um escândalo de Estado em vista da história da chamada 5ª República francesa inaugurada em 1958, seria uma definição apropriada ou extravagante?

O general Charles De Gaulle, austero fundador da 5ª República, era sábio, pagava a conta de luz do apartamento de função que ocupava com a esposa no palácio Élysée – um exemplo de respeito ao dinheiro do contribuinte e um modelo de frugalidade no exercício do poder.

O Liberador da nação, logo, nunca se viu implicado em casos em que a ação da presidência pudesse ser taxada como indiscriminada, facciosa e inspirada por preferências pessoais e por incúria no uso dos recursos de Estado em privilégios de favoritos.

No entando, o chamado Serviço de Ação Cívica ou SAC, dirigido por partidários gaullistas e executado por leões de chacará e arapongas privados – mas pagos por fundos eliseanos secretos, sempre foi visto como uma espécie de polícia política paralela a serviço do velho comandante da liberação.

O resistente ao nazismo e persistente candidato socialista François Mitterand, décadas depois da primeira refrega presidencial, foi eleito e empossado pela primeira vez em 1981. Homem de esquerda – quase toda à vida – não era menos rígido com o uso do dinheiro público em favor das despesas pessoais do chefe do Estado.

No entanto, uma célula de inteligência presidencial, inicialmente instaurada por Mitterand para auxiliar o presidente na luta contra o terrorismo, acabou se tornando uma guarda pretoriana na defesa dos segredos do homem-presidente ao ponto de organizar um sistema de escutas, mais tarde consideradas ilegais, de personalidades disparates – políticos, jornalistas e personalidades do mundo artístico e literário.

A principal motivação para este abuso de poder: proteger o segredo mais íntimo do chefe do Estado. A existência de Mazarine Pingeot, a jovem filha de François Mitterand fruto da longa relação adultera com Anne Pingeot.

Aliás, entre outras medidas tomadas para esconder esta família paralela do presidente mãe e filha passaram à viver em um pavilão luxuoso de Paris. Uma propriedade do Estado afeta à presidência, hoje transformada em anexo habitacional e subdividida em diversos apartamentos de função, e que também abrigara Alexandre Benalla por um breve período.

Uma imensa mordomia aos custos da coletividade durante os anos Mitterand, um pequeno regalo a um leal partidário na visão de muitos parlamentares da oposição durante o primeiro ano do reino de Emmanuel Macron.

Estes dois exemplos e tantos outros através das décadas que sucederam a instauração de eleições diretas para presidente na França, marcaram à crônica política e foram, justificadamente, considerados escândalos de Estado. Com consequências variadas de acordo com à época e a importância dos personagens envolvido bem como com a evolução da exigência moral da parte dos eleitores.

Se você fala francês e também ficou na dúvida sobre como caracterizar o caso Benalla na escala de escândalos, assista ao vídeo à baixo e decida por sí:

Caso contrário, aguarde a próxima semana quando  YAP, aqui neste espaço, tentará responder à esta questão.

Até lá, curta, siga e apoie nosso trabalho!

 

DF de Paris

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