Caos e violência na Champs Elysée durante a segunda jornada nacional de revolta fiscal na França

Apesar dos confrontos entre manifestantes e radicais contra as tropas de choque em pleno coração da “mais bela avenida do mundo” o movimento nas ruas do país foi menos seguido desta vez. Há uma semana os Gilets Jaunes envolveram 282 mil pessoas em mais de dois mil atos de protesto nos quatro cantos do território francês. O número de feridos esteve igualmente em baixa. Foram registrados apenas 19 casos – dois sendo policiais militares.

Uma semana depois da primeira jornada nacional de protestos dos Gilets Jaunes – Coletes Amarelos (CA) – o movimento geral de insatisfação, sem chefes, partidos ou organizações dirigentes, reuniu 106 mil manifestantes em toda a França (282 mil na semana passada) e cerca de 8 mil em Paris. No entanto, os violentos enfrentamentos entre as forças da ordem e uma minoria combativa de coletes amarelos e anarquistas, deu uma impressão de batalha campal no centro da Capital francesa que não se tinha visto tem uma semana.

A manifestação pacífica dos Gilets Jaunes (Coletes Amarelos), no que se chamou de 2° ato deste movimento inédito de protesto contra à tributação e as injustiças sociais, como temiam as autoridades, transformou a dita avenida mais bonita do mundo em um campo de batalha entre à tropa de choque responsáveis pela ordem e centenas de Coletes Amarelos violentos aliados à militantes extremistas em busca de confronto com os soldados da polícia Militar.

Isso porque, os manifestantes deste segundo sábado (24 de Novembro) de protestos em Paris, que sabiam de antemão que o governo não permitiria, como há uma semana, que os Coletes Amarelos desfilassem do Arco do Triunfo até a outra extremidade da avenida Champs Elysée, onde se localiza a praça da Concórdia. No entanto, como mais um sinal de desafio à autoridade do presidente Emmanuel Macron e do governo dirigido por Édouard Philippe, a maioria esmagadora dos manifestantes, cerca de 5 mil dos 8 mil que manifestaram nas ruas parisienses, combinaram de se encontrar à poucos metros do monumento símbolo desta via elegante da Capital.

Desde às dez horas da manhã, ondas de ataques e contra-ataques entre militantes armados de pedras, garrafas e paralelepípedos retirados da via de rolamento, e os soldados da tropa de choque, armados com toda a indumentária e equipamentos próprios à repressão de manifestações de massa, criavam um movimento ondular amarelo de um lado e azul do outro. Uma maré acompanhada de uma espessa fumaça branca e negra – uma consequência das granadas de gaz lacrimogêneo e das barricadas incendiarias levantadas pelos militantes mais determinados à romper as linhas de militares e marchar sobre a praça que lhes fora proibida.

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As 18 horas de Paris, quando nossa reportagem deixava o terreno da refrega, os manifestantes mais pacíficos forma dispersados por uma última carga da tropa de choque que, com bombas de gaz e fumaça e canhões de jato d’água pôs fim ao encontro dos Coletes Amarelos.

No entanto, a noite continua tensa na mais bela avenida do mundo, com vandalismo generalizado, barricadas incineradas, placas e outros objetos do mobiliário público destruídos e, pelo menos uma vitrine de uma loja de motocicletas de luxo na avenida de la  Grande Armée demolida.

Uma policial participando ao dispositivo de segurança nos confirmou que os militantes tinham partido ao passo que grupos com integrantes mascarados participavam de um quebra-quebra de cima à baixo da grande avenida central da Capital. “Eles estão por tudo” disse a oficial de polícia.  De acordo com as informações da rádio pública France Info, às 19 horas de Paris, um retorno progressivo à calma parecia se operar lentamente.

Por perto das 23 horas, sirenes ainda se ouviam distintamente pelas ruas da cidade.

Mais cedo, à tarde, se via claramente que a polícia tinha dificuldades de desobstruir a avenida e a rotatória  da praça Étoile em torno do Arco do Triunfo, posto que tinha seus esforços desviados por  um foco aguerrido de manifestantes persistentes mais à baixo em uma avenida Champs Elysée com as vitrines protegidas por grades de ferro. Normalmente repleta de turistas e clientes de lojas de luxo, a mítica via parisiense passou o dia de hoje sob uma neblina cerrada feita de gaz lacrimogêneo e de uma espessa fumaça oriunda de fogos espalhados em um perímetro limitado pelas barreiras e linhas de soldados de choque.

Difícil de enxergar a praça da Concórdia, objeto do conflito, na outra extremidade. Entre um estampido e outro, nós também tentamos conversar com os participantes que se negavam à ir manifestar ao pé da torre Eiffel, como havia oferecido o governo durante a semana.

Entre uma cólera trabalhista e uma queixa de classe média-alta que não quer mais financiar a solidariedade estatal pelo imposto e pela dívida interna, a nova taxa ecológica parece ter sido apenas um estopim à diversas frustrações contra um governo centrista que tem dificuldade de se mostrar à altura das expectativas contraditórias de quase 70% dos eleitores que escolheram Emmanuel Macron em 2017.

Sabine, que veio de Lille, no extremo norte, para participar da passeata de Paris, como à quase totalidade dos presentes em colete amarelo não agredia os policias presentes. No entanto, como todos, estava determinada à manifestar na avenida proibida do dia de hoje. “temos que ser moveis, se mexer, ir e vir e fazer isso todo o dia”, explica a nordista.

Bruno, de Évreux na Normandia, que participava hoje de uma passeata pela primeira vez em sua vida, também acha que a presença na Champs Elysée, apesar das restrições decretadas pelo ministério do Interior se justificava. “Não é ao inimigo de determinar aonde a batalha acontecerá”, afirma. Apesar do ar de desafio assumido, o jovem executivo acredita que a polícia agiu de forma profissional. “Não temos nada contra eles. Eles estão fazendo o trabalho deles”, diz da polícia que os assaltava por uma última vez neste inicio de noite.

Outra Normanda, Marie, próxima à aposentadoria pensa que o governo é que deveria tem agido com mais prudência e desde o início da manha impedido a formação do encontro de Coletes Amarelos nas proximidades do Arco do Triunfo. Para ela, a escolha de dispersar a massa uma vez formada foi deliberada. “Para descredibilizar o movimento que é pacifico” e que o colocaria face às contradições da ação governamental.

Além do mais, continua Marie, “nós temos a liberdade de circular neste país. Porque nós iriamos à um lugar se nós queremos estar em um outro?”, questiona. A normanda, contrariamente à muitos, não se declara “raivosa”, mas se define como “contestadora”. “Meus impostos, eu os pago. O que eu gostaria é de vê-los mais bem aplicados”. Para ela, as mordomias, as renúncias fiscais às grandes empresas e fortunas do pais ao mesmo tempo que novas taxas são criadas constituiria uma injustiça cada vez mais insuportável.

No fundo, prossegue, “são os anos e anos de cobras que o governo nos fez engolir” e que levam a esta manifestação espontânea de descontentamento e de afronta às autoridades.

Um pouco como pensa Marie Christine, de Seine-et-Marne, que foi obrigada a debandar mais cedo em uma das tantas cargas da tropa de choque em direção dos manifestantes que bloqueavam a circulação no entorno da Praça Étoile. Esta aposentada, acompanhada da filha, Cecilia, jovem funcionaria pública da saúde, explica que ela prefere o atrevimento de manifestar lá aonde o governo diz para não fazê-lo porque “atualmente nós desconfiamos de tudo e de todos”. Um sentimento anti-governo que a faz pensar que a escolha de um gramado bordado de árvores e em forma quadrilátera seria uma espécie de armadilha.

Mas para além de verem nas forças da ordem um braço armado de um Estado que não as representa mais, mãe e filha se sentem vítimas de uma injustiça fiscal e social, à imagem de diversos participante. “As desigualdades [as trouxeram aqui]. Desde de que [Emmanuel Macron] assumiu os mais ricos pagam menos e as pobres pessoas de baixo pagam mais”, explica Marie Christine. Como outros Coletes Amarelos que encontramos nos dois sábados de protestos, ela se diz revoltada com o que considera uma forma de desprezo da parte do governo dirigido pelo primeiro ministro Édouard Philippe, que pela vontade do chefe do Estado, limitou a alíquota do imposto sobre às grandes fortunas ou ISF, ao mesmo tempo em que aumentou em 2% a alíquota sobre a contribuição social geral ou CSG paga pelos aposentado do regime único e, agora, criou uma uma taxa dita ecológica sobre à venda de combustíveis vista como penalizadora das classes mais baixas.

Cecilia, como à mãe, não se considera em uma situação de extrema dificuldade, mas tão pouco de bonança. “Eu não tenho um salário de miséria e no entanto eu chego ao final do mês no vermelho devido aos custos obrigatórios que nos são exigidos”, testemunha. “[Macron] Ele dá aos ricos, mas os ricos não precisam de mais dinheiro, eles tem tudo que precisam”, acredita saber a funcionária pública.

Durante a campanha, Emmanuel Macron soube conquistar uma parte do eleitorado de centro direita e o apoio do maior sindicato patronal do país prometendo uma diminuição do ISF como medida de atração de investimentos e de ganho de competitividade empresarial. Entretanto, este argumento não convencem Cecilia. “É uma ilusão”, avalia. “Os ricos, quando ganham dinheiro não reinvestem no país. Eles pegam o dinheiro e o guardam para eles”, concluí

Com certeza, a jovem de Seine-et-Marne não é a única a pensar que a concomitância entre a baixa da ISF e a alta de outras taxas e alíquotas com uma incidência mais generalizada entre a população de aposentados e ativos tenha sido a gota d’água que fez transbordar o copo.

O que todos os Coletes Amarelos com quem discutimos desejam acima de tudo é que os dirigentes do país, e em especial o chefe do Estado, os escute e demonstre ter entendido o recado. Mesmo se é dificil deduzir um conjunto de medidas que provaria uma boa vontade da parte do governo, a volta do ISF ao nível anterior parece ser um bom começo para a maioria dos manifestantes.

Neste dia de grande agitação e violência na Capital francesa, o presidente da república, via twitter, agradeceu à polícia “pela coragem e profissionalismo” e conjurou os poucos agressores à ter “vergonha” pelas agressões as forças da ordem e à “cidadãos e jornalistas”.

Contudo, Macron preferiu não dirigir nenhuma palavra de apoio ou de reproche aos manifestantes em amarelo. O chefe do Estado francês deve se exprimir à nação na terça-feira da semana vem.

“A manifestação não é mais festiva mas uma sedição de Ultra-Direita”

No início da tarde de hoje, o ministro do Interior, Christophe Castaner, disse que o movimento não era mais um movimento “festivo” mas uma “sedição” incitada pela presidente do partido extremista Rassemblement Nacional – União Nacional (RN).

E de fato, ontem (23 de novembro) Marine Le Pen, através de uma postagem no site de microbloging Twitter, ela se questionava do porquê da proibição de manifestar na Champs Elysée. “O que justifica que o povo francês não possa manifestar na Champs Elysée, onde muitos outros encontros tiveram lugar?”, Se interroga. Uma forma de significar seu apoio aos Coletes Amarelos ouvidos pela mídia local e que manifestavam a intensão de desobedecer as indicações do governo.

Le Pen, à uma rede pública de tevê, se defendeu imediatamente. Ela nega ter conclamado quem quer que seja à manifestar ou à violência. É verdade que o ponto de interrogação ao final da frase deixa uma margem para interpretação das intensões da dirigente extremista. Contudo, fica difícil de imaginar que um tal ato de comunicação da parte da vedete da extrema direita francesa no parlamento nacional não tenha uma intensão de dar calção à indisciplina dos manifestantes, que indiferentes ao forte dispositivo de segurança e a presença de militantes de ultra-direita e ultra-esquerda com a intensão de levar às tropas à uma confrontação física, bravaram estes obstáculos assim mesmo e isso até o pôr do sol parisiense.

Entretanto, fica também difícil de imaginar que os mais exaltados que levaram à situação de violência do dia sejam todos militantes anarquistas de extrema direita ou de extrema esquerda, como tenta Castaner de caracterizá-los.

Mesmo se na prática o movimento mobiliza menos e realiza menos ações pelo país, uma pesquisa de opinião encomendada pela radio pública France Info junto ao instituto Odoxa-Dentsu mostra que cerca de 8 entre 10 franceses dizem ser solidários do Coletes Amarelos e, por volta de dois terços desejam que o movimento tenha prosseguimento. Uma prova pelos números de que um fenômeno trans-social atravessa a sociedade na nação bi-campeã do mundo de futebol – e não se trata do amor comum à seleção.

Origens entrelaçadas

Gilets Jaunes. Um movimento sem líderes e que se reclama apartidária surgido nos cantos militantes da Internet e das redes sociais tem concentrado a revolta difusa de diversas categorias de cidadão francesas.  Os descontentamento contra o aumento dos preços dos combustíveis, em especial do diesel, conheceu sua apoteose no sábado passado, quando centenas de milhares fora as ruas e estradas do país para demonstrar a exasperação da população periurbana e rual que se diz discriminada e desprezada pelo governo.

Em Paris, à estes flagelados sociais, uma classe média que se dessolidariza do Estado, se diz “sufocada” pela carga tributaria e preocupada com o futuro da dívida interna e que também quer menos impostos mas menos servidores e serviços públicos. Uma plataforma que, em parte, não unifica.

Independentemente da diversidade de indignações e de estratos sociais – o que leva a contradições de objetivos – que pode se ver nas passeatas e manifestações parisienses e de outras grandes cidade da França, tudo começou de forma orgânica e pela “base” da sociedade que se serve das Redes Sociais e da Internet com a mesma grande freqüência que se observa em diversos outros países nestes últimos anos.

Este movimento se diz apartidário e “asindical”.Ele tem origem na confluência de iniciativas de descontentamento contra uma nova taxa aplicada ao preço dos combustíveis na França e que as redes sociais, como sói de acontecer nestes tempos de populismo florescente, foram o instrumento que permitiu a interação.

Como explicou o sitio do jornal Le Monde, Pricillia Ludosky, uma jovem de 32 anos  da região metropolitana de Paris, lança, tem cinco meses, um abaixo assinado em linha no site change.org. Relegado ao semi-anonimato durante os primeiros 4 meses, o documento que pedia a baixa dos preços dos combustíveis no país passou a circular com velocidade viral no meio de outubro.

Como uma petição pela queda dos preços no posto ganhou tanto impulso? Ainda de acordo com o cotidiano francês foi um concurso de circunstâncias típico da era em que vivemos.

Ao mesmo tempo que a petição de Ludosky ganha adeptos e cliques, um humorista conhecido na internet divulga na plataforma Youtube uma canção sátira com o título “Se eu tivesse um (litro) de diesel à 1 Euro” e dois camioneiros criam um grupo Facebook (FB) conclamando a população e os colegas à bloquear as estradas do país no dia 17 de novembro.

O resto é refêrencia cruzada. O humorista, em outro vídeo, convida os fã à assinar o abaixo assinado de Pricillia Ludosky que, ela, por sua vez, agradece e pede para que todos manifestem contra a nova taxa ecológica sobre os combustiveis no dia 17 de novembro, como proposto pelos caminhoneiros.

Todos, então, pedem para que aqueles que apoiam o movimento que se formou exclusivamente pelas redes sociais passem a circular com o colete amarelo fluorecente, que faz parte do conjunto de primeiros socorros obrigatório em todo o veículo na França, sobre o painel do carro. O movimento dos “Gilets Jaunes” ou Coletes Amarelos nasceu, ganhou adeptos e obrigou todos os responsáveis políticos a se posicionar face à uma nova revolta contra os tributos cuja fórmula o país hexagonal parece ter o segredo.

Primeira Edição publicada às 22h40 – horário local

Segunda Edição Publicada às 00h04 – horário local

DF de Paris

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