Coletes Amarelos – Paris se prepara para mais um sábado negro

Paris, 07 de dezembro. Na véspera do que se tem chamado de 4º ato do movimento dos Coletes Amarelos (CAs) a Capital da França apreende e se prepara para um sábado negro. As concessões feitas pelo governo no início da semana não enfraqueceram a determinação dos mais ativistas dentre os simpatizantes deste movimento cujo caráter, a cada semana, ganha contornos insurrecionais.

O clima entre as autoridades é de grande tensão. Nos arredores do Arco do Triunfo, de maneira intermitente, se escuta sirenes ao longe. Em coletiva, o ministro do interior fala da manifestação de amanhã como de “um mostro que escapou ao controle dos seus genitores”. Ele estimou em 10 mil o número de manifestantes, no país, que estariam dispostos à enfrentar e agredir a policia neste sábado (8 de Dezembro. Ela ainda espera “poucos milhares” de manifestantes em Paris, mas ” certamente ultra-violentos” entre eles.

O medo de uma escalada na violência se explica. O objetivo de uma parte crescente das figuras públicas e de muitos Coletes Amarelos que se politizaram durante as três semanas que dura a crise iniciada no dia 17 de novembro não é mais somente de reforma fiscal mas de renovação profunda do sistema político tal que ele é desde 1958.  A busca, e da saída de Emmanuel Macron da Presidência da república, da destituição do Senado, da Assembleia Nacional, de eleições gerais ou  por uma Assembleia Constituinte não são mais reivindicações secretas mas são discutidas publicamente. Objetivos ambiciosos que embaralham as cartas que poderiam oferecer uma saída para a agitação.

Para este sábado, a preocupação primeira é com a manutenção da ordem pública. Entre os grupos e coletivos de porte-vozes dos Coletes Amarelos há um racha. De um lado, o grupo constituído pelos “fundadores” do movimento que falam abertamente de manter à pressão até, ao menos, o presidente da república renuncie ou que novas eleições parlamentares se realizem. Os principais nomes dessa corrente insistem que o movimento manifeste em Paris apesar do risco de confronto.

O coletivo moderado de “Coletes Amarelos Livres”, se formou em oposição aos “fundadores” vistos como radicalizados. Hoje, à poucas horas de um encontro com o primeiro ministro Edouard Philippe, Jacline Mouraud, uma das representantes mais midiáticas do grupo, convidou os Coletes Amarelos à evitar Paris. Para ela , vir à Capital é uma “armadilha”, posto que o governo, segundo ela, “tenta nos fazer passar por arruaceiros [ultra-violentos]. Não vejo interesse em manifestar em Paris”, concluiu.

No final da noite, os membros do coletivo falaram de uma reunião de “escuta”. Na descrição de Christophe Chalençon, representante no Vaucluse, no sul da França, o encontro “não foi de negociação”. Eles entregaram uma lista extensa e ampla em termos de reivindicações e esperam que “Macron saiba ouvir o povo Francês”. Claramente, os Coletes Amarelos “livres” esperam outros gestos da parte do executivo como recompensa ao chamado à calma e ao pedido que este grupo fez à não manifestação em Paris.

Ontem (5 de dezembro), em entrevista ao jornal da oito da rede pública de televisão France 2,  o premier informou que o dispositivo de segurança previsto para amanhã será reforçado. 89 mil soldados e policias da tropa de choque estarão nas ruas do país. Em Paris, principal ponto de preocupação, eles serão 8 mil. Na semana passada, em toda a frança eles foram 65 mil e na Capital cerca de 5 mil.

Além do aumento dos efetivos, neste 4º ato, anunciou Philippe, a cidade luz verá 12 veículos blindados à disposição das forças da ordem. Raros em operações de controle da ordem em meio urbano, eles são capazes de destruir barricadas.  Um aparato policial de exceção para um risco visto como excepcional pelas autoridades do país.

Tanto é que, quanto à Prefeitura de Polícia de Paris, o órgão responsável pela segurança pública na capital, esta pede aos comerciantes da avenida Champs Elysée que eles permaneçam fechados durante o sábado inteiro.  Em reposta, a maioria das lojas da famosa avenida protegeram as vitrines com painéis em madeira e com barras de ferro. Também, como precaução, a sociedade que administra a Torre Eiffel e dez museus parisienses anunciaram o fechamento para o dia de amanhã. Outros prédios públicos e se serviços como o de metrô serão interrompidos.

Atos e Palavras

Os Coletes Amarelos Triunfarão. Esta foi uma das frases deixadas pelos ativistas em confronto como ornamento sobre a antiga epiderme do Arco do Triunfo em Paris no sábado passado.

Vilipêndio, oráculo ou promessa? A semióloga Marriette Darrigand, à respeito da atmosfera discursiva que envolve o movimento dos Coletes Amarelos ao final da sua terceira semana de duração, disse que “as palavras tem uma função performativa”.

Ela faz referência aqui, certamente, John Lagshaw Autin, filosofo inglês morto nos anos 60 e cujo livro “How to do Things With Words” – Como Fazer Coisas Com as palavras em tradução literal –  e que explicava, entre outras coisas, que as palavras fazem coisas mas que o emissor e seu contexto devem sempre ser analisados por completo.

A linguagem “ordinária”, dizia Austin, conteria toda a realidade existente posto que as línguas foram transmitidas pelos Homens que sobreviveram à seleção natural e, como os seus praticantes, se mostram as mais aptas à representar a realidade e as alternativas linguísticas para descreve-la de acordo com um contexto e um locutor específicos.  Sem suma, entre duas frases possíveis para “fazer algo” e agir sobre a realidade, se observarmos bem, à sempre uma que é mais eficaz para o fito que desejamos.

Desde que o Governo concedeu o fim da taxa sobre a venda de combustíveis, Philippe e outros membros da maioria Macronista e o presidente da república Emmanuel Macron, tem convidados todas as lideranças polícias, associativas e sindicais do país a convidar os ativistas em revolta à não vir à Capital neste sábado.

Contudo, em muitos casos, políticos, intelectuais e “porta-vozes” do grupo de manifestantes tem empunhado a clava forte do verbo tanto guerreiro, tanto revolucionário ou tanto vingativo.

Quando questionados sobre a oportunidade de dirigir ao público palavras de agitação, ou de justificativa da agitação, ou de relativização da violência, na média, se segue uma imprecação anti sistêmica, onde a violência do capitalismo “ultra liberal” é mais injusta ou preocupante que o atentado ao patrimônio, público ou privado, à ordem ou à sensibilidade daqueles que se vêem em meio a tormenta do rito da violência que os mais inflexíveis Coletes Amarelos querem impôr à Paris e ao poder central – até o triunfo final.

Tradicionalmente, os movimentos sociais, mobilizados por sindicatos, partidos políticos e líderes de opinião pública com acesso às mídias tradicionais, vão as ruas enquadrados pelos serviços de segurança das centrais sindicais, em um percurso negociado com às autoridades de polícia da capital e terminam pela dispersão em clima festivo. Uma marca registrada das grandes passeatas de protesto contra a política governamental ou de reivindicação trabalhista ou “societal” é o alegre bate-papo entre manifestantes em dispersão em torno de um copo de cerveja e de um prato de “Merguez-Frites” – Pão com linguicinha e fritas.

Este momento de socialização, catarse e encontro nos quais uns se identificam com os outros e se contam costumava ser a sequencia final de uma narrativa milimetrada. Um crescendo: da reunião sindical no chão da fábrica, na repartição pública, nos escritórios, salas comunais de campanha passando pelo debate organizados pelos meios de comunicação e com a participação de sindicalistas, intelectuais e responsáveis políticos de uma parte e de outra e, em fim, o apogeu da avenida apinhada, cinza e coberta por uma massa que faz corpo e que dá corpo às insatisfações e/ou ambições de um mosaico social complexo mais com pontos de convergência.

“As Palavras tem uma função performativa”, diz a semióloga. Para arregimentar pernas dispostas a marchar contra o que possa fazer distopia em um determinado momento, na modernidade francesa, os sindicatos faziam das palavras um uso calibrado: gerar indignação para canalizá-la e, na ocupação pacífica do espaço público, estabelecer uma relação de forças com o poder e partir para a negociação com a musculatura tesa e flexionada. Neste caso, a palavra fez coisas. Agiu sobre o real.

Mas o movimento do Coletes Amarelos, comparou em entrevista à radio France Info, Frabrice Elpoboin, professor na escola superior Science Po de Paris e especialistas dos movimentos socias surgidos pela Internet, está para os sindicatos e partidos políticos, assim como “o aplicativo Uber estve para às empresas de tadio taxi”.  Os Cas, como as revoltas da Primavera Árabe, como Anonymous ou movimento da catraca em 2013 no Brasil, seriam movimento de “escalada da violência”, ensina Elpoboin.

 

Esta revolta 2.0, prossegue o estudioso, “resta um movimento revolucionário, com um crescimento progressivo da violência. Nos estamos vivendo sob um ritmo em que todos os sábados se exprime a cólera em Paris”. E o professor de arriscar uma previsão: “Para es festas, é provável que seja [o momento] de catársis”.  Na diversidade mais absoluta, os CAs encontram poucas convergências e “nenhuma interface, nenhum acordo possível à encontrar com um grupo qualquer que seja”. É uma narrativa com sequencias de encontro virtual e de crescimento viral, em paralelo ao real, e uma sequencia de irrupção inicial ou de imersão sem uma sequencia final.

Entrar Elysée à dentro

Quando o Colete Amarelo que foi o primeiro à sugeriu a data do 17 de novembro como ponto inicial de um protesto contra a taxa Ecológica sobre a venda dos combustíveis – agora extinta – Éric Drouet, vai a tevê e diz que, no sábado que se avizinha, os CAs devem, mais uma vez, tentar marchar até o palácio do Elysée e “entrar porta à dentro”. O que ele quer fazer quando ele diz o que diz? Alias, o Ministério Público diz ter aberto um inquérito por incitação à violência em bando contra o caminhoneiro de Melun.

Quando um conhecido e capacitado cientista político de esquerda, Thomas Génolé, aliado recente do partido La France Insoumise (LFI), em uma postagem no site de microbloging Twitter, regozija do medo que os Coletes Amarelos causam aos clientes bem afortunados de hotéis de luxo no entorno do embretados nas recepções pelo movimento, ele espera obter uma ação, uma repetição de partes da peça de rua semanal. Mas qual?

E o que dizer de Jean-Luc Mélenchon? Candidato derrotado à presidência da república, cuja facunda de estudado escárnio e desprezo por todos aqueles que não comungam do desiderato revolucionário que o habita (revolução cidadã em busca de uma democracia participativa insiste ele), hoje deputado nacional e líder do maior partido da esquerda francesa (LFI) pós-François Hollande, como escrutar nas suas palavras a performance deseja, quando ele, do auto da tribuna ornada pelos doiros da república ele convida o povo “razoável” à voltar as ruas de Paris, a dizer ao “monarca” [Emmanuel Macron] que eles não às deixarão até que o o presidente “ceda ou parta”. Se ele não ceder, como obrigá-lo à partir.

Ainda há um Colete Amarelo da Bretanha, Maxime Nicolle, engolfado pela “blogoesfera” complotista francesa canal histórico, e que prodiga análises baseadas em rumores e aconselha aos seus seguidores no facebook à persistir e a enfrentar a violência do Estado. Ontem, em um “live”, Nicolle aconselhava à audiência de dezenas de milhares de internautas à “estocar alimentos não perecíveis, a ferver água” e outras medias de cautela contra o bloqueio que ele deseja que aconteça no país. Claramente, ele quer derrubar o governo e também fala de “nova república”. Resistir para fazer triunfar a revolução. Falar, para fazer triunfar a revolução.

Do lado do governo, o primeiro ministro e o ministro do Interior e outros adjuntos também fazem uso das palavras. No caso, é claro que coisas eles querem fazer com as palavras que proferem. Eles tem deixado claro que o 4º ato do movimento Coletes Amarelos em Paris preocupa. Ao renunciar a taxa dos combustíveis, ao estender à mão e convidar os cidadão a debater sobre o futuro da transição energética e da evolução do poder aquisitivos, Edouard Philippe tenta desarmar os espíritos e afastar os manifestantes de capital.

O ministro do Interior, Christophe Castaner, advertiu durante toda a semana da extrema periculosidade de certos indivíduas que manifestariam o desejo de “bater nos tiras, e, até mesmo, matar os tiras”. O chefe das policias na França não cansou de repetir. Tradicionalmente, pessoas investidas de tais responsabilidades de Estado, quando eles falam de ordem pública nestes termos, eles tem uma legitimidade legal e um capital de credibilidade que deveria incitar seus concidadãos à circunspeção. “As palavras tem uma função performativa”, nos lembra Mariette Darrigrand.  E, com efeito, segundo as teses de Austin, quando um primeiro ministro, porquê ele é o primeiro ministro, ou quando o ministro do Interior fala, porque ele é o ministro do Interior – eles agiriam.

Mas no caso de um movimento que se formou à margem das tradicionais palavras que agiam de ofício até um passado recente, e que estas palavras não fazem parte da alma do grupo, como esperar um retorno à calma? O que é a medida do triunfo? O que fazer das palavras?  Podem elas ainda fazer coisas, se “cada um corresponde à uma palavra e uma reivindicação”, como dizia nesta quarta-freira o cientista político Stéphane Rozès?

 

Amanhã, desde as primeiras horas da manhã, a reportagem de YAPMAG estará nos entornos do Arco do Triunfo para acompanhar o “4° Ato” parisiense do movimento dos Coletes Amarelos.

Por volta do meio dia, horário local, nós publicaremos um primeiro flash com fotos e primeiros depoimentos. Acompanhe também através de nossa página Facebook .

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