Após um 5º ato dos Coletes Amarelos em claro recuo: desfraldar das cortinas ou entreato?

O 5º ato do movimento dos Coletes Amarelos (CAs) teve um claro recuo em toda França especialmente em Paris. Tendo  2.200 manifestantes na capital e  66 mil em todo o país. Mostrando uma grande diferença da semana anterior, em que  125 mil  pessoas foram as ruas no país e 8 mil na cidade luz.

Durante o 5º ato ocorreram raros distúrbios na  capital. Porém nas  cidades de Bordeaux e Toulouse o dia foi tenso com confrontos violentos. Em ambos municípios 4 mil e 500 Coletes Amarelos manifestaram.

Detenções preventivas tiveram forte queda na capital, até às 17 horas foram levados sob custódia 168 militantes. Foram 27 prisões em Bordeaux e 30 em Toulouse.

Bordeaux deteve, hoje, o recorde de feridos. Foram 22 na capital girondina, 10 em Toulouse e 7 em Paris.

Os sinais cruzados enviados pelos diversos líderes de opinião do movimento dos Coletes Amarelos resultaram em uma mobilização menor em Paris  e também na França.  No ato de hoje, fato raro  nos entornos dos movimentos sociais franceses, a capital acolheu 8 mil policiais e apenas 2.200 manifestantes.  Em todo o país, eles não foram mais de 34 mil. Ao meio dia, no que se conveio chamar  de “setor da Champs Elysée”, a circulação era quase normal – ainda que na mais conhecida avenida do mundo a maior parte das lojas de luxo e outros comércios estivessem fechados e protegidos por paliçadas improvisadas.

Grandes espaços em branco entre os esparsos grupos amarelos dominavam esta via que virou um símbolo da revolta dos Coletes Amarelos tem mais de um mês. A prova do recuo do número de manifestantes na capital é o número de prisões preventivas realizadas até o início da tarde deste sábado do 5º ato do movimento. De acordo com as informações da Prefeitura de Polícia de Paris (PPP) apenas 85 pessoas tinham sido detidas. Na semana passada, no mesmo momento, eles já eram cerca de 550 manifestantes sob custódia policial. Até às 17h horas, eles eram 165 recolhidos pelas forças de ordem.

À esq, avenida dos Champs Elysée no dia 8/12. À dir. no dia de hoje – fotomontagem: © YAP

Mesmo que o clima em Paris tenha claramente se distendido os manifestantes em torno do teatro da Ópera – impedidos de circular em direção da avenida Champs Elysée – na parte da tarde, se mostravam arredios ao controle policial operado pelas forças da ordem que os cercavam. Contudo, apesar de esporádicos enfrentamentos mais firmes, as cenas de violência que se tornaram uma das marcas destas jornadas de sábado não se reproduziram. Pela manhã, há um quilômetro do Arco do Triunfo, uma única carga policial, com tiros de bombas de gaz lacrimogêneo, foi repertoriada.

Em Bordeaux, como na semana passada, entre os 4.500 militantes que saíram as ruas para manifestar, grupos violentos entraram em confronto com as tropas de choque, deixando a situação da capital girondina tensa e com cenas similares as de guerrilha urbana vistas há duas semanas em Paris. O principal palco de enfrentamento foi a praça Pey Berland, no centro da cidade. No início da noite, de acordo com o ministério do Interior, se contabilizavam 27 interpelações em margem dos protestos e 22 feridos – um recorde no dia de hoje – sendo 6 policiais.

Tarde tensa na praça Pey Berland, no centro de Bordeaux – foto: ©F.Cottereau

Ao vivo em todas as redes de tevê a cabo, imagens vindas de Bordeaux, com manifestantes atirando objetos diversos contra as linhas policiais, que respondiam com o típico gaz de efeito moral, jatos de água e cargas rápidas para rechaçar os militantes mais coléricos.

Em Toulouse, mesmo número de manifestantes no momento de maior afluxo, de acordo com o ministério do Interior, a operação das forças policiais levou à 30 detenções provisórias e 10 feridos – sendo um jornalista e 3 policiais.

Barricadas incendiárias em Toulouse – foto: © Juliette Meurin France 3

Já no final da tarde, o ambiente na avenida Champs Elysée se tensionou em frente ao Arco do Triunfo e a polícia acossada por militantes mais exaltados se viu obrigada à dispersar a multidão com novos disparos de gás lacrimogêneo. De maneira menos grave que nos últimos três finais de semana, e ainda com menor intensidade que a situação em Bordeaux, manifestantes em Paris eram comprimidos por filas de policiais apoiados por canhões de água, de uma extremidade à outra da famosa via  na qual os Coletes Amarelos estavam confinados desde o meio da manhã. De maneira cíclica a calma foi retomada, resultando no escoamento da avenida no final do dia. A circulação foi restabelecida na  “mais bela avenida do mundo” às 19h.

Coletes Amarelos “Livres” ou em “Cólera”

A composição social e política das massas na rua, mas também daqueles que dizem apoiar o movimento, é plural e, no estado atual, de difícil discernimento. Entretanto, a natureza da função de comunicação social em tempos de democracia das opiniões leva a esquematizações generalizantes e com falta de nuance. com esta observação feita, pode se dizer que dois polos mais ou menos coerentes se destacaram entre o início do movimento e  este 5º final de semana de luta.

A três quilômetros dali na praça da Ópera os representantes da ala radical do movimento – “A França em Cólera” – se concentravam, desde as primeiras horas da manhã. Maxime Nicolle, radical adepto de teorias do complô, em curto discurso a  uma pequena multidão concentrada em frente as escadarias do teatro da Opera Nacional de Paris/Opera Garnier, reafirmou a intensão de recolocar “a soberânia popular” no poder, entre outras, pela criação da possibilidade de realizar referendos de iniciativa popular – ou R.I.P na acronímia dos Coletes Amarelos.

O R.I.P, logo, é  o objetivo final deste coletivo de representantes “históricos” que ainda contam com os militantes oriundos da região parisiense Priscillia Ludosky e Éric Drouet.  Todos continuam defendendo a manutenção da pressão nas ruas para obter reformas políticas que não fizeram parte dos anúncios presidenciais.

No campo da luta pelas ondas de rádio e televisão, a musa moderada do movimento, membro fundador do coletivo do “Coletes Amarelos Livres” Jacline Mouraud, pensa que “as portas” para o diálogo “estão abertas para todos” que queiram passar à mesa de negociação. Em entrevista a uma emissora de rádio pública nacional ela disse desejar que os CAs, “se estruturem”.  Segundo ela, “não se conhece uma casa sem fundação que pare de pé”. “Não é possível passarmos todos os dias em piquetes pelas rotatórias do país”, sustenta a militante moderada.

Ela ainda revelou que tem mantido encontro com diversos ministros do atual governo “de maneira discreta,” pois estaria sofrendo, por parte de ativistas intransigentes, ameaças e assédio virtual nas redes sociais que Mouraud diz não mais frequentar. Esta figura conhecida dos Coletes Amarelos da região da Bretanha, ganhou destaque quando publicou  há 4 meses um dos primeiros vídeos de apoio à este movimento que então nascia. O  documento “viralizou”  e atingindo mais de 6 milhões de internautas em poucos dias.

Apesar da fama instantânea que a hipnoterapeuta alcançou com o apoio universal que a sua queixa contra a famosa taxa Ecológica sobre os combustíveis recebeu, cobrança que agora foi extinta em definitivo, a sua postura conciliatória causou revolta entre os grupos de Coletes Amarelos mais exaltados –  nos quais Jacline Mouraud é fortemente hostilizada.

Referendo de Iniciativa Popular

O clima criado pelo atendado em Estrasburgo, somado aos anúncios feitos, primeiramente pelo ministro Edouard Philippe e, em seguida, pelo presidente da república Emannuel Macron no dia 10 de Dezembro, criaram uma trilha de fundo nos dias que antecederam este 5º ato de hoje: “Coletes Amarelos: responsabilidade! Sejam razoáveis! Venham para a mesa!”

O Ministro do Interior, dos bancos da Assembleia Nacional, convidou os CAs  a  “não manifestarem” em nome da ordem pública ameaçada pela exaustão das forças de policias.  Que agora estavam também mobilizadas pela renovação da ameaça de terrorista. No mesmo dia [quarta-feira] pela manhã, o porta-voz do Governo, Benjamin Grivaux, chamou os militantes em amarelo fluorecente à “responsabilidade”.

À exemplo Mouraud, Benjamin Cauchy – outro CA Livre – convidou os mais temperados dentre os Coletes Amarelos à manifestar no interior da França e evitar Paris.  E a mesma coisa foi dita do lado dos políticos de diversos partidos, com exceção da esquerda radical e da extrema direita.

Já o grupo “A França em Cólera” fiel à uma plataforma “revolucionária” que é muito mais ampla que as reivindicações fiscais e sociais do “Coletes Amarelos Livres”, manteve o apelo à mobilização. Mesmo uma coletiva, em uma sala simbólica da Revolução Francesa de 1789 em Versalhes, foi concedida na quinta-feira (13 de Dezembro) reforçando a luta “até o fim” por reformas políticas não contempladas nos anúncios das duas semanas que passaram.

O referendo de iniciativa popular esteve na boca de muitos, hoje na Champs Élysée. Nós perguntamos a uma manifestante da Bretanha, o que ela gostaria de colocar em votação direta, caso os CAs obtivessem o direito para organizar este tipo de consulta. “Nós não esperamos mais nada do governo. O que nós queremos, claramente, é o R.I.P.. Nós não queremos mais ser gerenciados por ditadores. O problema é que eles [os eleitos] decidem sem perguntar mais nada ao povo. Nós queremos que o povo decida agora”, explica Angelique.

“Se nós tivéssemos [a possibilidade de organizar um referendo] vamos começar pelas taxas,” completa a militante. O que está bretã quer é “que no país com os impostos mais altos do mundo” o povo decida do aumento ou da baixa do nível de imposição.

Antony, estudante de Limoge, no centro da França também pensa que as concessões feitas pela Presidência e pelo governo não vão tão longe quanto ele gostaria. A solução, o R.I.P.. “A União Europeia é uma vigarice! O que eu quero é que o governo recupere seus poderes exclusivos de Estado. O que eu gostaria de ver em um referendo de inciativa popular é o Frexit, é a saída ou não da União [Européia]”, defende o estudante, quanto a ele, sem ambiguidades.

Se nós continuássemos à  indagar os 2 mil e 200 Coletes Amarelos presentes na capital neste sábado nós iriamos obter dezenas ou centenas de respostas diferentes sobre os assuntos que deveriam ser decididos pelos eleitores de forma direta. Uma marca deste movimento que rejeita a classe política como um todo e que gostaria de arbitrar os temas que dividem à nação sem a participação dos eleitos.

Reivindicações de difícil satisfação imediata que nos coloca face à pergunta sobre o que o claro recuo dos Coletes Amarelos ativos nas ruas da França nos ensina sobre a durabilidade deste movimento. No início da noite, o ex-presidente da república François Hollande, antecessor de Macron, disse pensar que a revolta fiscal “chega à sua conclusão”.

Até o momento do fechamento desta matéria, um “6º ato” ainda não tinha sido lançado nem tampouco um apelo a uma nova mobilização nacional tinha sido ouvido. Porém, mesmo que em tendência de queda, a peça escrita pelos Coletes Amarelos pode ainda esconder novos atos.

O sociólogo especialista das relações sociais no trabalho Jean-Pierre Amadieu vê neste 5º ato um ar de fim de festa. Segundo este especialista do mundo do trabalho, em circunstâncias similares, após obter concessões parciais, um movimento social desta amplitude inicia um período de aceitação e de dispersão, onde as direções fazem um balanço final, recomendam o fim momentâneo ou definitivo e projetam novas lutas futuras.

No entanto, previne o sociólogo, um movimento que não soube se estruturar, que nasceu das redes sociais e de maneira horizontal, pode não se acomodar. “Porque justamente, não há uma direção para chamar o final da partida”, explica. Neste caso, focos de radicalização que se desenvolveram e ultrapassaram as barreiras do anonimato das redes sociais, podem decidir continuar a luta. Além destes focos, uma nova fagulha pode relançar o incêndio na Internet que deu origem aos Coletes Amarelos e recolocá-los, em massa, nas ruas.

Por enquanto, o que parece se desenhar é um cessar fogo. Emmanuel Macron ganha algumas semanas ou meses. Os debates regionais que o chefe do Estado deseja ver organizados poderão encaminhar novas iniciativas capazes de apaziguar a sociedade. Porém, a atmosfera conflagrada do país inspira a precaução dos governantes quanto ao potencial de eficácia deste espaço de diálogo que deve ir de janeiro à abril.

5º ato, cena, cortinas ou entreato?

Primeira edição às 17h51

Segunda edição às 21h54

DF de Paris

VL contribuiu de Porto Alegre

 

 

 

 

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