Vídeos polêmicos do “8º Ato” dos Coletes Amarelos transformam em réu o ex-campeão de boxe Christophe Dettinger em processo de linchamento de um policial

Um dos dois personagens emblemáticos surgidos do “8º Ato” do movimento dos Coletes Amarelos (CAs). Christophe Dettinger, ex-campeão  de boxe da França na categoria meio-pesado, foi visto  em duas sequências de vídeo participando de um linchamento durante a manifestação.  Nas imagens um primeiro policial vai ao solo após ser empurrado pelo ex-atleta. Já no chão,  o militar da Tropa de Choque é agredido a socos e chutes pelo pugilista e por dezenas de manifestantes. Em um segundo momento, também capturado em vídeo, o ex-lutador boxeia contra um outro policial, desferindo golpes precisos contra o torso e o rosto do agente.  Dettinger ficou dois dias foragido, mas acabou se apresentando às autoridades no final da segunda-feira (7 de janeiro). O agressor agora aguarda a próxima audiência do processo que ocorrerá no dia 13 de fevereiro em prisão preventiva decretada ontem (9 de janeiro) pela Justiça.

Este chefe de família sem antecedentes tornou-se um símbolo quase imediatamente. Para os CAs mais radicais,  responsáveis pelos tradicionais quebra-quebras durante as passeatas de sábado, a violência do ex-lutador é vista como uma prova de heroísmo. Mas apesar disso, o réu alega estar arrependido e assume a culpa pelos seus atos. Ele  pretende utilizar o processo para defender a honra e apresentar à corte o “verdadeiro homem” visto nas imagens. Se condenado, ele pode ser sentenciado à 7 anos de prisão e a uma multa de até 100 mil euros.

O sábado que passou levou 50 mil pessoas às ruas da França no que foi chamado de “8º Ato” do movimento dos Coletes Amarelos (CAs). Em alta em relação à tem duas semanas, mas claramente em refluxo na Capital e no interior – o 1º Ato reuniu 320 mil pessoas – esta jornada de protestos, ainda que mais ordeira, conheceu episódios de grande expressão de violência de parte à parte.

E desde então, uma batalha simbólica se estabeleceu no país, graças à três sequências de imagens que se tornaram emblemáticas da violência consubstancial dos atos de protestos Coletes Amarelos. Mas em sentidos inversos, dependendo de quem às comente.

Em Toulouse, no Sul da França, um comandante condecorado da polícia militar foi visto em ação, em um vídeo amador que viralizou, agredindo a socos um indivíduo com as costas contra o muro e aparentemente indefeso.  Didier Andrieux, não deve ser objeto de um inquérito judiciário, mas uma sindicância foi instaurada para esclarecer as circunstâncias que levaram este chefe policial apreciado das tropas que comanda à disparar sucessivos golpes contra um homem sob controle de outros colegas.

Este comandante comendado da Ordem da Legião de Honra da república francesa se tornou o símbolo da violência policial contra os CAs. A prova de que a fúria desencadeada desde os primórdios do movimento é uma forma de legitima defesa.

Do outro lado do país, na Capital Paris, em uma passarela para pedestres sobre o Sena, um ex-campeão profissional de Boxe, Chistophe Dettinger, fez da ponte um ringue onde ele se livrou à um combate contra um policial militar da Tropa de Choque que procurava impedir a progressão dos Coletes Amarelos presentes à passeata que rumava em direção do palácio Bourbon – sede da Assembléia Nacional. Dois vídeos mostram uma primeira confrontação, onde o ex-campeão francês dos meio-pesados, junto à uma malta de manifestantes, chuta, repetidas vezes, o torso de um policial junto ao chão. Em um segundo, com ares pugilísticos, ele, finta, esquiva, recua e agride a socos com endereço preciso um policial em retirada. 

Chistophe Dettinger, de acordo com a defesa jurídica que o representava, ontem (9 de janeiro), em audiência em uma das duas câmaras do Tribunal de Pequenas Causas Penais de Paris, agora diz que, na primeira cena, em que ele lincha um agente da lei ao solo,  ele teria reagido da forma vista para proteger uma manifestante também no chão, que é avistada de vermelho nas imagens que viralizaram. Sentada junto à assistência, * Guenaelle, cabelo pintado de púrpura, assitia aos trabalhos do Tribunal e se dizia disposta a testemunhar em favor de Dettinger, que segundo ela “salvou” sua vida.

Segundo a militante CA, que sofreria de câncer no pulmão, inicialmente “presa na armadilha” que teria se tornado a passarela, em um momento de pânico com origem na massa de manifestantes impedidos de atravessar a ponte pedestre pela Tropa de Choque, ela perde o equilíbrio e cai. Neste instante, prossegue Guenaelle, um primeiro policial militar, à acode e tenta reergue-la. Mas um segundo militar da Choque, ainda de acordo com a versão desta ativista, passa à atacá-la a golpes de cassetete. “eu recebi [pancadas] na boca e na arcada [dentária]”, descreve. “E nesse momento, o boxeador chega e retira [do entorno] o policial que me batia”, rememora.

No entanto, um exame atento das imagens filmadas por uma equipe da agência independente Line Press, realizado pela reportagem de YAPMAG, não permitiu discernir a intenção de Dettinger ao agarrar o policial que ele joga ao chão e, subsequentemente, agride à ponta pés. Tudo se passa em uma questão de segundos. O que é incontestável é que o policial que foi, posteriormente agredido por diversos CAs, no inicio da ação, esta no setor onde jaz Guenaelle, em vermelho na imagem.

Aliás, o policial em questão, foi hospitalizado e suspenso por 15 dias em razão de convalescença devido as lesões causadas pelos golpes recebidos. Em entrevista para uma rádio pública, o agente da lei explicou  que o lutador passou à ofensiva quando ele e os colegas se preparavam para recuar. E que ele teria demonstrado a “intensão de ferir”, na opinião do agente.

A presença de Guenaelle no processo hiper-mediatizado do pugilista CA foi o resultado do concurso de um penalista, Philippe de Veulle, simpático à causa dos Coletes Amarelos, e que, contatado “espontaneamente” pela ativista, decidiu levar ao conhecimento da dupla de defesa do Colete Amarelo suspeito de linchamento este testemunho atenuante. O objetivo claro, tanto de de Veulle, como dos defensores de Dettinger, Yves Vigier e Laurence Leger, era de obter uma nova data em uma nova corte de justiça para que o processo pudesse se atardar sobre os antecedentes do boxeador, as circunstancias que o levaram às agressões cometidas e sobre o contexto sócio-profissional do agora célebre ativista.

Eles pensam que a vida pregressa, o comportamento familiar e a avaliação dos colegas de trabalho de Christophe Dettinger são favoráveis ao homem que admitiu o erro e que diz “lamentar” os atos cometidos. Dettinger, um ex-campeão profissional da categoria meio-pesado, era conhecido  nos ringues como o “Cigano de Massy”. Aposentado desde 2013, hoje ele trabalha como funcionário público local em uma pequena cidade da região metropolitana de Paris e tem mulher e três filhos.

O que se quer com o adiamento do processo é, conforme o defensor Yves Vigier, que todas estas circunstancias, colocadas na balança, levem a uma punição proporcional e equilibrada e não à uma sentença exemplar sob a pressão midiática e política do momento.

O ex-pugilista, pelo enfrentamento franco e à mãos nuas das forças da ordem, se tornou o exemplo que o governo buscava para justificar as medidas excepcionais adotadas nos entornos das passeatas organizadas pelos Coletes Amarelos desde o famoso 17 de Novembro de 2018.

Ainda assim, este funcionário Público, réu primário, é hoje visto pelos camaradas CAs como um herói.  Ou seja, em poucos dias, tanto Dettinger quanto o comandante Andrieux  viraram símbolos e justificativas à violência praticada pelas forças da ordem e pelos elementos mais belicosos do movimento de revolta que paralisa a vida política na França tem dois meses.

O homem do povo versus o homem da lei

Didier Andrieux, por sua vez, seria o retrato do policial militar exemplar, na visão dos franceses que pensam que a ordem deveria voltar a reinar nas ruas e, com muito mais pertinência, o vilão e o arquetipo do agente violento e arbitrário que os CAs não cessam de denunciar à cada sábado de protestos. Ele é também a justificativa do comportamento combativo, e por vezes, criminoso, dos ativistas em colete fluorescente. 

Ontem, pela via do advogado que o policial mandatou, Didier Andrieux divulgou um vídeo onde, supostamente, ele aparece sendo agredido, corpo ao solo, por manifestantes de um grupo numeroso de CAs, poucas horas antes das primeiras imagens que emergiram nas rede sociais e onde ele é visto, sem capacete, e com comportamento ofensivo em duas circunstâncias.

Dettinger, em poucos dias, foi erigido em herói dos Coletes Amarelos que sofreriam sob o jugo de tropas policiais que os agrediriam sem razão. O mantra ouvido na boca de todos os militantes em manifestações: “nós somos pacifistas”! Ele é a imagem do ativista que não aguentaria mais respirar o lacrimogêneo, ser o alvo de balas de borracha e ouvir o rufar dos cassetetes contra o escudos transparentes dos homens da lei. Neste sentido, ele seria um vingador de todas as “vítimas” da “repressão de Estado”.

E mesmo que o vídeo mais incriminante seja o que o exibe como protagonista de uma cena de linchamento, foi sua batalha contra os policias da Choque que o transformaram em uma celebridade instantânea.

Vestido de preto, com a calva coberta por um gorro igualmente preto, mas com o rosto exposto, Dettinger, como se estivesse em um ringue, avança em direção dos policiais militares e desfere golpes contra um dos agentes.

 

No tribunal, questionado pela presidente da câmara, ele disse que, de fato, ele buscou “zombar” dos policiais quando partiu para o ataque contra um segundo agente. O policial alvo do “jabs” e “Upper Cuts” de Dettinger, sem sequelas aparentes, esteve presente na audiência acompanhado de seu advogado Jean Philippe Morel que se constituiu assistente de acusação no caso.

Christophe Dettinger, cuja atividade Facebook demonstra uma proximidade programática com a extrema direita francesa, desde domingo foi identificado e ficou foragido por dois dias. neste ínterim, ao mesmo tempo em que ele se entregava às autoridades para audição e prisão preventiva, o lutador aposentado,  divulgou um vídeo explicando que ele agira mal, mas  motivado “pela cólera de todos os franceses” da qual ele seria um dos portadores. Neste vídeo em que ele aparece com ar emotivo, por vezes choroso, tomado por sentimento vivos, o pugilista não manifesta arrependimento – apesar de assumir os atos que o são atribuídos. Ele também não faz menção à Guenaelle nem revela o desejo de protege-la dos golpes do policial que ele agredira como motivação para o primeiro ataque. 

O combate do lutador “pelo povo francês” levou à criação de uma conta de financiamento participativo – uma vaquinha em linha, em outras palavras – em favor de Dettinger. Conta que, seguido à críticas generalizadas e pressões do governo, foi encerrada.  No entanto, em 3 dias, esta “ação entre amigos” recolheu 118 mil euros. A plataforma Leetchi, que abrigou a “vaquinha”, informou que o dinheiro recolhido servirá, exclusivamente, para cobrir os custos processuais e com honorários advocatícios ligados aos fatos do sábado passado – razão inicial declarada pelo criadores do carnê.

O sucesso do carnê fez com que a secretária de Estado Para a Igualdade Entre As Mulheres e Os Homens, Marlène Schiappa, um dos mais jovens membros da equipe de governo, se manifestasse contra a iniciativa: “Eu acho que esta  bolsa é uma vergonha! (…) à que ponto de ódio no debate público nós chegamos para que hajam franceses que considerem importante servirem-se de seus cartões de banco para participar de uma bolsa de ajuda para apoiar uma pessoa que atacou violentamente um policial que estava presente [a manifestação] unicamente para fazer respeitar à ordem pública”. 

Este primeiro salvo da secretária custou a Schiappa, já acostumada ao assédio eletrônico, dois dias de ataques virulentos pela Internet. Ela tem estado presente nas ondas de rádio e tevê desde que foi missionada pelo governo, nestas últimas semanas, para apresentar e defender o “Grande Debate” desejado pelo chefe do Estado Emmanuel Macron para recolher contribuições dos CAs sobre futuras reformas e que deve começar desde a semana que vem e se estender até a primavera européia. 

Ainda que habituada a crítica virtual, segundo este membro do governo Edouard Philippe, o nível de virulência sexista, abusiva e injuriosa tomou uma tal proporção que Marlène Schiappa decidiu dar queixa por ultraje e ameaça.

Hoje pela manhã, em uma rádio de grande escuta na França, Schiappa comentou a experiencia dos últimos dias, desde de que ela decidiu criticar a bolsa solidária em favor de Dettinger. Citando a recém empossada parlamentar federal norte-americana de Nova Yorque Alexandria Ocasio Cortez, ela diz que as mulheres na política são tratadas diferentemente dos homens – mesmo quando criticadas. “Os  homens serão insultados por suas opiniões e uma mulher será sexualizada.”, constata. “E é o que ví. [Em suas contas nas redes sociais] há incitação ao estupro, comentários imundos, ameaças de sevícia sexual, onde eu apareço em efígie como uma boneca inflável, foto-montagens onde eu apareço semi-nua, sou insultada com palavra de conotação sexual”, descreve.

A secretária de Estado Marlène Schiappa em entrevista à France Inter (10/01/2019) captura

A secretária, em uma postagem no site de microbloging Twitter fez um sumário dos insultos dos quais ela tem sido o alvo tem 3 dias: “P**a de judeus”, “P**a do Elysée”, “A senhora merece receber um tiro de bala de borracha na cabeça”, etc…

Neste cotejo de representações e de imagens, quem aparece como vencedor por pontos da luta das vaquinhas virtuais é o campo da lei e da ordem. Por iniciativa de Renaud Muselier, presidente Les Républicains (LR) da região Alpes-Côtes D’Azur no sul da França, uma outra conta Leetchi foi aberta e, neste caso, para constituir um fundo de apoio aos mais de mil policiais civis, militares, da Tropa de Choque e do Corpo de Bombeiros feridos desde de o início do movimento dos Coletes Amarelos. A iniciativa, até o final da tarde de hoje (10 de janeiro) já tinha ultrapassado a soma de 1 milhão de euros.

No mesmo dia, Éric Drouet, personagem extremista e controverso da ala mais colérica do movimento, criou uma outra conta, hospedada na plataforma PayPal, com o objetivo de recolher também 1 milhão de euros em favor do feridos entre os Coletes Amarelos desde o dia 17 de novembro de 2018. Entretanto, até o fechamento, a conta CA tinha atingido apenas 9% do montante alvo ou cerca de 89 mil euros ao todo.

Punido por agressão

O Comandante Didier Andrieux é também conhecido pelo seu temperamento explosivo. Tem dois anos ele já fora sancionado por agressão à um colega. Um gesto que ele afirma ter sido o fruto de um acidente. O policial agredido teve o maxilar e o nariz fraturados por uma cotovelada endereçada à porta de um armário do vestiário em que os dois colegas se encontravam, sustentou, durante investigação interna, Andrieux. À época, a sindicância da corregedoria se soldou por uma simples advertência. 

Por outro lado, o policial que foi filmado aos socos contra um homem aparentemente desarmado, é um comandante de divisão da polícia militar que comanda 400 homens uniformizados e é um portador da insignia da Ordem da Legião de Honra – mais alta comenda republicana. Neste último sábado fatídico, ele não participava da sua primeira operação de manutenção da ordem desde que o movimento dos CAs tomou o rumo das ruas aos finais de semana. Ele esteve, de fato, presente à todas às manifestações, explica Frédréric Piquel, representante sindical para a região do Var do sindicato policial de direita Alliance Piquel, sobre a reputação do comandante diz que Andrieux é visto como Alguém “sempre presente, fiel ao cargo”.

Ontem, através de um advogado constituído pelo militar implicado nas imagens de violência policial, um novo vídeo, filmado de uma janela em um edifício na periferia de Toulouse, mostra que, 2h antes dos fatos em que, supostamente, Didier Andrieux esteve envolvido, ele é jogado ao chão e é alvo de chutes vindos de pelo menos uma dezena de manifestantes em amarelo. A cena dura alguns segundos, quando o agente que parece ser o comandante é retirado da armadilha por colegas e escapa ao cerco.

O procurador da república de “Cidade Rosa”, Bernard Marchal, ainda no final de semana passado, decidiu não abrir um inquérito contra o comandante Andrieux. Para o chefe do Ministério Público (MP) de Toulouse, o policial “agiu de maneira proporcional”. Mais tarde no vídeo que o coloca em situação delicada, Andrieux é visto atacando um CA desarmado sobre o capô de um carro. Neste caso, também, Marchal diz que o contexto mostraria que o manifestante agredido teria atacado o militar momentos antes e que este teria reagido no intuito de controlar o agressor.

Didier Andrieux, no sábado mesmo, em um outro vídeo filmado por manifestantes, quando confrontado, assume a ação, se defende e convida as interlocutoras à “dar queixa” posto que ele é “um comandante conhecido”. O policial, à imprensa já tinha justificado os socos contra o primeiro homem pelo fato de que este teria um gargalo de garrafa quebrada na mão. Um objeto que ele procurou retirar do indivíduo com um primeiro golpe desferido contra as mão do homem visto rodeado de policiais e com as contas contra o muro. Os outros golpes, se defende, partiram na sequencia para assegurar que o alvo da agressão estaria realmente desarmado.

De acordo com fontes policiais consultadas pela rede de tevê France 3o jovem alvo do golpes de Andrieux não seria um manifestante mas uma figura conhecida da delinquência local e que ele teria sido interpelado e colocado em prisão preventiva. De fato, o homem não é portador de um colete amarelo nas sequências que acusam Andrieux de brutalidade.

Prisão preventiva decretada

Christophe Dettinger, ao entrar na sala, às 22h, e se posicionar junto ao bando dos réus, tinha a escolha, detalhada pela presidente da câmara do Tribunal de Pequenas Causas Penais, de ser julgado imediatamente, à frio, ou de pedir um adiamento e um desaforamento – mudança de juízo encarregado do processo. Convencido de que o julgamento neste momento, em que a pressão política e midiática atinge o ápice, em comum acordo com os seus defensores, o ex-pugilista preferiu a opção que o deixa um mês, pelo menos, para melhor preparar sua defesa.

Um pedido que lhe foi concedido pela câmara. No entanto, detido tem dois dias para esclarecimentos, restava decidir o que fazer com o agora réu durante o período que antecederá a próxima audiência – que terá lugar em um mês. Um debate vivo se estabeleceu entre a defesa, o Ministério Público e o representante legal dos soldados vítimas das sucessivas agressões perpetradas por Dettinger.

A penalista Laurence Leger clamou pelo relaxamento da prisão. “A liberdade deve ser a regra” fez valer a advogada. Já Yves Vigier, outro defensor da causa do ex-campeão, colocou em evidência o que ele considerou uma vida “sem desvios” até o sábado do dia 5 de janeiro, e a conduta de “um cidadão perfeito” do cliente. Endereço conhecido em residência própria, ficha limpa, visto como funcionário modelo por colegas e dirigidos na prefeitura onde trabalha, marido amado pela esposa e pai de família. Este e outros motivos, de acordo com Vigier, justificariam a liberdade imediata do Boxeador Colete Amarelo.

No entanto, as três julgadoras, no final de uma longa noite de trabalho, preferiam dar razão ao MP que argumentou que, visto as circunstâncias da evasão inicial de dois dias de Dettinger e o seu confesso desejo de continuar participando das manifestações semanais do movimento, este ofereceria tanto um risco de fuga, quando de reincidir em novo dia de protesto e, portanto, deveria permanecer sob custódia da Justiça.

A família de Chistophe Dettinger, presente a audiência, ao ouvir a prisão preventiva decretada, lançou invectivas e acusações de comprometimento das magistradas com o poder Executivo em direção da corte. Para evitar distúrbios maiores ou prisões por desacato em série, a presidente do Tribunal fechou a sessão rapidamente. No caminho dos corredores do Fórum Central de Paris, vivamente indignados, amigos e familiares ainda vituperavam contra as magistradas em termos pouco corteses e até mesmo de grande vulgaridade.

Já do lado de fora, Yves Vigier lamentou a decisão que diz não compreender juridicamente. Para ele, visto as garantias oferecidas pela defesa, sobejas na sua opinião, Dettinger, logicamente, deveria ter sido liberado sob condições. Contudo, pensa o penalista, a câmara preferiu aceitar as pressões indevidas vindas dos palácios Matignon e Elysée. Ele diz que as reiteradas expressões de respeito a independência da Justiça na França, vidas da classe política, não passariam de palavras ao vento. “O poder executivo ocupa o seu tempo a fazer injunções aos magistrados”, acredita Vigier.

O que se espera, agora, é que durante o julgamento, Christophe Dettinger evite a pena máxima que o colocaria, sem dúvida, atrás das grades por bem mais de um mês.

DF de Paris

VL de Porto Alegre colaborou.

* Guenaelle preferiu não revelar seu sobre nome por razões de privacidade.

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