Na Calais pós “Selva” a dissuasão de Estado como única política de imigração 1ª parte

Mais de um mês após a publicação de dois relatórios de ONGs humanitárias que denunciaram a persistência do uso, pela polícia e autoridades locais, de táticas de intimidação dos cerca de 500 migrantes presentes à cidade de Calais no norte da França You Agency Press (YAP) decidiu passar o dia nesta localidade que chegou a acolher cerca de 10 mil migrantes na chamada “Selva” – vasto campo de refugiados, quase todos em busca de uma oportunidade de realizar a sonhada travessia do Canal da Mancha e alcançar à costa da Inglaterra vizinha. 

YAP buscava confirmar ou desmentir, de maneira independente, as conclusões mais alarmantes feitas pela ONG Calaisiana Auberge des Migrants (AdM) e por Human Rights Watch (HRW). O que a reportagem encontrou, desde de o porto marítimo de passageiros de Calais, passando pelo centro da cidade e entre os migrantes e seus benfeitores, foram numerosos testemunhos que corroboram as denúncias. 

No entanto, a dificuldade é a de encontrar provas tangíveis dos malfeitos. Ainda assim, a acumulação de relatos que vão no sentido de um verdadeiro assédio aos candidatos ao exílio inglês e aos voluntários de ONGs humanitárias de assistência aos refugiados permitem entrever uma situação inquietante de provável desrespeito aos direitos mais elementares destes estrangeiros. 

Por outro lado, Calais e seus habitantes, ainda que à voz baixa, se dizem aliviados pela virtual invisibilidade do punhado de migrantes que resistem às condições precárias que as autoridades da região oferecem. O método utilizado para afastar potenciais refugiados dos bairros mais centrais da cidade não parece suscitar o interesse da população – contrariamente às associações que se alarmam da “truculência” dos policiais e do “descaso” das autoridades locais. 

*** de Calais

O departamento do Pas de Calais é visto pelos franceses como uma espécie de “frigorífico” à céu aberto durante os meses de inverno na França. Contudo, as duas tempestades que atingiram o mar do norte, entre o final de dezembro e o início do ano, trouxeram uma relativa doçura ao clima local. Uma surpresa bem vinda pelas centenas de migrantes desabrigados vivendo nos bosques afastados da cidade de Calais.

Sem poder contar mais com os violentos ventos que se abateram sobre à costa de Opala – esta porção litorânea do extremo norte francês – o nível do mercúrio dos termômetros despencou na segunda feira, 8 de janeiro, quando YAP visitou a “lande” calaisiana. A volta do frio torna a vida dos migrantes mais árdua. Os abrigos de urgência do Estado não são suficientes para acolher à todos.  A vida nas ruas, sob um tal clima, se torna insuportável. Estes viajantes, sem escolha, procuram suportar, no entanto.

Quando da nossa chegada à Calais, diante do terminal portuário de passageiros, às 4 horas da manhã, só se ouvia o som do motor do ônibus que partia em direção da Inglaterra e os grunhidos das gaivotas. No interior, menos de uma dezena de passageiros esperam, mal acomodados em bancos feitos de alumínio, pelo próximo ferry  em rota às mesmas terras de destinação do coletivo que me deixou na secular cidadela flandreana.

Neste entre ato – em busca de um taxi ou de um outro meio de transporte que me levasse ao centro de Calais e ao primeiro encontro marcado com os trabalhadores humanitários da associação Salam – cruzamos com Maxime. Este jovem segurança, entre os trinta e os quarenta anos de idade, nascido e criado na antiga capital mundial da renda, conheceu todas as crises migratórias que colocaram esta cidade portuária sob tensão por quase duas décadas. Primeiro como bombeiro voluntário, agora como segurança privado – um vigia à serviço da Coroa inglesa que financia boa parte da atividade alfandegária em Calais – 113 milhões de euros nos últimos três anos.

***

Alias, O chefe do Estado francês, Emmanuel Macron, em recente encontro bilateral com a chefe do governo inglês, Theresa May, na cidade de Sandhurst, obteve um acréscimo de 50 milhões à estes mesmos fundos. Um novo tratado que completa os acordos do Touquet, assinados em 2004 e que, de fato, fizeram de Calais uma espécie de empresa de terceirização da administração da defesa da “fronteira” inglesa no Norte da França. Isso porquê, em virtude desta mesma parceria entre os dois Estados vizinhos, os agentes alfandegários da rainha realizam controles livremente dentro das infraestruturas ferroviárias e portuárias francesas que dão acesso à ilha britânica – e precisam proteção contra a tentativa de infiltração dos migrantes que buscam burlar a fiscalização inglesa. 

Sem contar com a gestão das estradas que dão acesso à caminhões, constantemente ameaçados por “piquetes” organizados por refugiados em desespero de causa e que buscam reter estes veículos de transporte pesado, se esconder entre a carga e tentar realizar a sonhada travessia sem despertar a suspeita das autoridades. Uma hipótese quase sempre fadada ao fracasso mas que ainda causa transtornos e mesmo mortes. De parte à parte. 

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O vigia não via como eu poderia deixar o porto antes das 7h da manhã. Minha única chance de me desenclavar, seria, disse-me ele, ir ao balcão de vendas de bilhetes, por volta das 5 horas e meia, e pedir para que a agente de plantão me ajudasse à encontrar um taxista já em serviço.

Neste ínterim, jogando papo fora, Maxime, se demostrou loquaz. Como bombeiro voluntário, ele conheceu a “aldeia de kossovares”, há mais de dez anos, que chegaram à Calais atraídos pelo então recentemente inaugurado Euro Túnel – esta engenhosa ligação submarina entre a França e o Reino Unido – que colocou o Norte hexagonal à menos de meia hora de distância do solo inglês. Já como vigia, ele se viu parte do dispositivo de proteção das instalações ferro-portuárias contra as constantes tentativas de invasão coletiva atentadas por refugiados em busca do eldorado britânico – e, por conseguinte, de um meio de travessia clandestina pelo mar ou pelos trilhos.

O que este calaisiano nos descreve é um conto em dois capítulos, essencialmente. De um lado, a solidariedade geral dos cidadãos de Calais em direção das primeiras ondas de refugiados de conflitos como o dos Balcãs, entre outros. “Quando eles eram menos numerosos, nos conhecíamos à todos. Por etnia e tudo. Nós nos entendemos bem com eles”, relembra.

No entanto, segundo este profissional da vigilância,  “com [o aparecimento] da ‘Selva’ [campo de refugiados irregular] passaram a existir rivalidades entre eles [migrantes], acertos de conta [violentos] … Calais sofreu muito com [as crises] a imigração”, avalia.

Sem antagonizar à reportagem de YAP, o segurança pareceu desabusado quando o assunto é a cobertura jornalística da cidade natal. “A Gente vive aqui e quando agente vê o que se conta na mídia, é sempre o lado bom [da presença dos migrantes ]”, desabafa. Não demonstrando animosidade particular contra os estrangeiros que buscam atravessar o canal da Mancha, Maxime gostaria de ver nos jornais, radios e TVs do país um quadro mais próximo da realidade como ele diz vivencia-la.

Para ele, a grande mídia não fala o suficiente sobre as mazelas que uma ocupação clandestina de terrenos ou que uma grande concentração de refugiados na região podem acarretar. hoje, continua o segurança privado, as poucas centenas de migrantes espalhados por volta de Calais não são mais um transtorno.

Contudo, Maxime teme que novas crises migratórias venham, mais uma vez, fazer novamente desta cidade funil da imigração clandestina à Inglaterra um grande campo de refugiados à céu aberto. Para além dos transtornos e perigos de uma explosão demográfica de migrantes como a que se deu entre 2014 e 2015, o portuário lamenta o golpe à imagem do município.

“Quando da última versão da ‘Selva’ se viam repórteres do mundo todo. CNN, BBC, dos Estados Unidos, da Italia e Alemanha. Até do Brasil. Eles vinham, entrevistaram os migrantes e depois, na tevê, durante o jornal das oito, a única coisa que se via era ‘incêndio em Calais’ ou ‘violência no campo de refugiados'”, lamenta.

***

Com a discussão franca, o tempo passou rápido e Maxime precisou fazer uma nova ronda em torno do porto. Afinal, o zelo das instalações bem como do bem estar dos potenciais “invasores” é a preocupação que ocupa os pensamentos do  jovem vigia.

“Quando eles fazem besteira nos temos que tirá-los da situação de perigo em que eles se colocam”, explica, ou se despedir.

Um bom momento para ir até o guichê de vendas de passagens da linha de ferry DFDS para pedir ajuda à Julie que acaba de bater o cartão. De acordo com fontes bem informadas, esta sorridente calaisiana é capaz de encontrar um taxi à qualquer hora do dia ou da madrugada, no caso.

Curiosa, enquanto teclava o telefone em busca do precioso taxista em atividade, ela perguntou o que eu estava fazendo tão cedo no Porto. Sem rodeios, ao conhecer minhas intenções, a jovem agente de viagens lançou em um tom de exclamação típico do Norte: “mas olha, nos últimos meses melhorou muito”!

Ela também reconhece que o desmantelamento da “Selva” trouxe tranquilidade para a Capital do Pas de Calais. Na época do grande campo de refugiados, comenta Julie, “a cidade sofreu o impacto” da presença migrante numerosa. Esta francesa nortista da “gema”, por assim dizer, vive no centro, e durante o período de maior afluxo de refugiados, este bairro nobre também teve que encontrar um  modus vivendi com os viajantes bloqueados em Calais.

Contudo, relembra a jovem portuária, “ao sair de casa, na madrugada – às 4 horas, 5 horas da manhã – eu cruzava com os migrantes. E eu não tinha medo”,contrariamente aos relatos daqueles que se opõe à esta população em transumância. Ela não nega os contratempos, transtornos e até mesmo delitos causados pela presença migrante na região. Simplesmente, esta trabalhadora arquétipo do calaisiano exaurido pelas crises migratórias, testemunha de uma experiência positiva.

“Acho que eles tinham mais medo de me assustar do que eu poderia ter medo deles. quando eu fechava o portão e saía de casa, muitas vezes eles trocavam de calçada. Acho que era uma marca de respeito, pra me mostrar que eles não eram uma ameaça, nem para mim, nem para ninguém” relata Julie.

Mesmo vendo a figura do migrante diferentemente, o que estes dois portuários de profissão dividem é um aparente alívio com a chamada “invibilização” do problema. Antipáticos, solidários ou indiferentes aos refugiados que ainda insistem em procurar em Calais uma brecha que os permitam cruzar a Mancha, poucos são aqueles que se indagam sofre a adequação moral dos métodos de dispersão utilizados pelos numerosos policiais em posto na cidade.

No breu da manhã e de muitas incertezas

A cidade, apesar de desperta, se encontra mergulhada, ainda, nas penumbras herdadas da noite. Em um terreno baldio, longínquo, pequenos “cachos” de jovens homens surgem de ruas, becos e matas adjacentes. São migrantes que chegam para o desjejum oferecido por uma das ONGs que os assistem distribuindo o café da manhã a estes prisioneiros da clandestinidade imposta pelas leis européias e pelos acordos entre a França e a Inglaterra.

A minha presença é vista de longe, com desconfiança. por volta das nove horas, eu me aproximo de dois jovens, bem agasalhados. Para minha surpresa, diferente da maioria, eles são fluentes em francês – outros afegãos, como *Amim e *Muhad, bem como eritreus, etíopes, sírios, líbios ou sudaneses são, à quase 100 por cento, anglo-fônicos.

Eles me perguntam de onde eu sou e pedem para ver minhas credenciais. Convencidos da minha profissão, estes refugiados se apressam em me explicar o porquê de tamanha precaução: “as vezes, pela manhã, policiais civis, à paisana, rodam a rua e exigem que nós lhes apresentemos os documentos”. Muhad, que se desculpa da tamanha desconfiança inicial, me mostra um protocolo emitido pela sucursal regional do ministério do Interior, o obrigando à partir sob pena de prisão e deportação forçada.

Ou seja, para ele, um encontro com as autoridades policiais pode representar um retorno forçado ao país natal de onde ele diz ter “escapado”. Amim e Muhad são irmão. Juntos, após cinco meses de viagem e dezenas de milhares de dólares gastos com atravessadores, estes dois afegãos, decididos à cruzar o canal da Mancha, desembarcaram no chamado Calaisis.

***

Na segunda parte da nossa reportagem nesta cidade do Norte que concentra muitos dos desafios da gestão dos fluxos de imigração em direção da França e da Europa YAP vai contar o que viu no contato que teve com refugiados, jornalistas locais e associações humanitárias que trabalham pela acolhida incondicional destes migrantes cujas situações diferem mesmo se todos buscam as praias britânicas.

Como já havíamos dito:

Como a reportagem de YAP em Calais pôde constatar, as tensões nestes bivaques humanitários é constante devido às condições difíceis de vida destes refugiados, as rivalidades intra-étnicas e a presença de atores ambíguos nos entornos desta população de flagelados.

No próximo capítulo vamos decantar esta fórmula através dos testemunhos de migrantes, trabalhadores caritativos e atores locais de Calais.

* Os nomes foram modificados para proteger as identidades das fontes

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